A morte anunciada da cassete aos 40 anos de vida

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Primeiro foram os DAT e mini-disc, a facilidade em gravar CD-R e, agora, os leitores de MP3. A velha cassete áudio viu-se ultrapassada pelas ferramentas da era digital e, 40 anos depois de ter entrado no mercado e liberalizado a gravação doméstica, e de ter conhecido explosiva projecção mundial na década de 80, quando o leitor portátil, o Walkman, virou fenómeno global, as suas vendas são vestigiais, quase terminais.

A cassete áudio foi criada em 1963 pela Philips, consistindo originalmente de um prático invólucro de plástico para proteger uma fita magnética (da BASF). A fita possuia quatro pistas, duas estéreo por cada lado. O investimento da Philips venceu os outros formatos então em desenvolvimento e, em 1965, quando chegou ao mercado, a cassete rapidamente ganhou a adesão dos consumidores, não só através de títulos pré-gravados, mas sobretudo as fitas-virgem, prontas para fácil gravação doméstica em fita de ferro ou dióxido em doses de 46, 60, 90 e 120 minutos (as cassetes de 74 e 100 minutos são invenção recente, já na era do CD). As "velhas" fitas em bobina rapidamente desapareceram do circuito doméstico e acabaram circunscritas a tarefas profissionais até acabarem destronadas pelas DAT, mini-disc e discos rígidos.

A cassete podia ter um característico ruído de fundo, tremer, distorcer, e muitas vezes a fita acabava amachucada nas cabeças do gravador, mas a sua dimensão e volume de armazenamento tornou-a num formato de grande popularidade (particularmente no terceiro mundo, onde leitores de cassete se vendiam mais que as caras aparelhagens estereofónicas). A Philips não cobrou direitos sobre a patente e numerosas companhias usaram o seu design, aumentando e expandindo a produção. As vendas de cassetes áudio conheceram um pico em finais de 80, altura em que se vendiam, só em pré-gravadas, mais de 900 milhões de unidades por ano, ou seja, 54 por cento das vendas mundiais de música.

A indústria discográfica alertava então para a pirataria caseira, e apontava a cassete como um formato que ia destruir a música. Mas a verdade é que a cassete representou um dos mais importantes veículos de divulgação e exposição de selecções musicais. A "invenção" do conceito de mix tape, uma sequência de faixas seleccionadas por quem gravava em função de um destinatário concreto, muitas vezes presente para a pessoa amada, proliferou mundo fora, imortalizado por Nick Hornby no livro Alta Fidelidade. Implicavam uma arte, primeiro na selecção, depois na gravação, com precisão no dedo a acertar o momento certo de carregar, em simultâneo, as teclas Play e Rec. As mix tapes conheceram depois projecção como força de mercado "paralelo", particularmente importante em áreas marginais às linhas-mestras da indústria, muitas vezes agrupando gravações de bandas não editadas, sobretudo nas áreas do rock'n'roll, electrónicas e hip hop. Thurston Moore (dos Sonic Youth) lançou há dias um livro dedicado a uma cultura muito particular ligada às mix tapesMix Tape The Art Of The Cassete Culture. Há uma semana, o Village Voice publicava um artigo no qual explicava a transferência do conceito da mix tape para o iPod. Mas chegava a uma conclusão óbvia não é a mesma coisa!

Apesar do rápido desaparecimento dos escaparates das lojas de discos, a cassete áudio ainda permanece viva em algumas livrarias, sobretudo em mercados onde vingou o formato do áudio-livro, particularmente o Reino Unido e os Estados Unidos (houve ensaios de audio books em CD, mas sem grande sucesso comercial). O áudio-livro assegura a leitura a olhos preguiçosos e, sobretudo, aos cegos e, como nos "irmãos" de papel, também gera best sellers. O último foi O Código Da Vinci de Dan Brown (há muito que se não vendiam tantas cassetes áudio).

Apesar da presença vestigial na Europa Ocidental e América do Norte, a cassete áudio ainda sobrevive como formato para venda de música em países como o Afeganistão ou Índia (aqui representando 50 por cento das vendas, com 80 milhões de unidades anuais). Há ainda mercados no terceiro mundo onde as edições prioritárias ainda se fazem em cassete. Tudo porque a penetração do leitor de CD ainda não é tão visível nestes mercados. Até quando?

A principal fábrica norte-americana de cassetes áudio deixou de laborar há poucas semanas, acelerando a rota inevitável de uma morte anunciada (com ocaso mundial previsto por especialistas para as imediações do ano 2010).

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