A modernização do ódio e o papel da comunicação.

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O ataque a uma creche em Blumenau, no sul do Brasil, deixou quatro crianças mortas. Infelizmente, não é a primeira vez que isto acontece. É curioso pensar que os últimos dois anos superam o número de ataques dos últimos 20 anos no país. Só neste ano - importante lembrarmos que estamos em abril - já foram pelo menos quatro casos com destaque em diferentes áreas do país de tamanho continental. Nos últimos 10 dias, foram dois ataques armados à educação básica. Desde agosto de 2022, foram pelo menos 10 ataques violentos em instituições de ensino no Brasil.

Desde 2002, foram 22, segundo a Unicamp. É, então, um indicador de que estamos indo na direção errada e na disseminação do ódio. É alarmante.

É importante questionarmos, no entanto, que fatores da comunicação podem acabar por ter consequências para estes tipos de ataque. Um estudo realizado pela Arizona State University mostra-nos que episódios como este acabam por ser contagiosos. De acordo com o mesmo estudo, a cobertura intensa deste tipo pelos media pode alimentar o chamado "contágio".

Acontece que muitos dos criminosos utilizam as redes sociais para propagar as suas ideias, transmitir ao vivo, anunciar os crimes, como foi o caso na creche em Blumenau, ou para remeter a ataques passados, como também aconteceu no massacre de ontem. É importante ressaltar que isto não acontece apenas no Brasil.

Nos Estados Unidos, muitas destas agressões também são pré-anunciadas em fóruns online e nas redes sociais. Um exemplo é o massacre que aconteceu em Buffalo, onde o atacante também anunciou o crime, justificado com ideias supremacistas brancas. Outro ataque, em Uvalde, Texas, que matou 22 pessoas, incluindo o criminoso, e compartilhou a mesma tendência de ser pré-anunciado nas redes sociais. E por que não houve reação das autoridades? E como evitar o efeito contágio?

No Brasil, meios de comunicação social tomaram uma importante decisão, na quarta-feira, a fim de tentar evitar que crimes como este se repitam. A partir de agora, diversos meios decidiram não mostrar mais a imagem dos agressores e seus nomes, com o propósito de não dar "fama" aos atacantes. Na minha opinião, é uma medida decisória para evitar a martirização de criminosos e evitar a inspiração para novos ataques.

No âmbito da política, o governo federal brasileiro anuncia 150 milhões de reais para reforçar patrulhamento e evitar ataques em escolas, através também do reforço no monitoramento da deep web.

Na União Europeia, a Lei dos Serviços Digitais visa criar um espaço digital mais seguro, onde os direitos fundamentais dos utilizadores sejam protegidos e criar condições equitativas para as empresas. No entanto, quando falamos sobre ataques a tiros, o Artigo 18 alega que "sempre que um prestador de serviços de alojamento virtual tome conhecimento de qualquer informação que levante suspeitas ou está a ocorrer ou é suscetível de ocorrer um crime que envolva uma ameaça à vida ou à segurança de uma ou várias pessoas, o prestador de serviços de alojamento virtual informa imediatamente da sua suspeita as autoridades policiais ou judiciárias do ou dos Estados-membros em causa e fornece todas as informações pertinentes disponíveis."

Para que a violência não seja banalizada, é necessário combater a intolerância e radicalização, principalmente nas redes sociais. De novo, isto não se resume apenas ao Brasil. Trata-se de uma cooperação entre os media, responsáveis por divulgar informações, governos, através de políticas públicas de diversos setores, como o da saúde, da educação, defesa e de segurança pública.

Esta medida é importante, afinal, em tempos onde as redes sociais têm sido cada vez mais responsáveis na democratização de ideias, mas também na disseminação de ódio. A Lei dos Serviços digitais, apresentada pela UE pode ser encarada por alguns como algo que vem a interferir na liberdade de expressão e na privacidade dos usuários em tempos "normais". Trata-se do eterno debate da liberdade de expressão vs. segurança digital.

No entanto, diria com uma certa certeza de que não são tempos normais. Atualmente, temos acesso exacerbado a qualquer tipo de informação - seja ela boa ou ruim. A liberdade, no entanto, difere-se da libertinagem. A liberdade acaba quando fere a de outra pessoa. Portanto, se não cortarmos o mal pela raiz agora, enfrentaremos problemas ainda mais graves no futuro.

É crucial a maior monitoração das redes sociais para pouparmos vítimas e traumas no futuro. Aquelas crianças que sobreviveram a Uvalde, Suzano, Realengo, Blumenau, Buffalo, ou qualquer outro massacre, carregarão traumas para sempre. Carregarão o medo de ir à escola, talvez até medo de interação com outras crianças. Escolas não são alvo. Se não frearmos a modernização do ódio agora, mais vidas serão perdidas, e, cada vez mais, ataques como estes se tornarão mais globalizados e farão ainda mais vítimas.

Marina Guimarães, consultora de Comunicação da AMP Associates

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