A menina do vestido cor-de-rosa que nasceu em Abril de 2022

Publicado a
Atualizado a

A menina do vestido cor-de-rosa que nasceu em Abril de 2022 foi a protagonista improvável das comemorações da Revolução de Abril trazida este ano à baila pela bancada socialista.

Pedro Delgado Alves simbolizou na menina do vestido cor-de-rosa tudo o que de bom Abril lhe vai trazer e convenhamos que não é coisa pouca. Graças à revolução a menina poderá, profissionalmente, aspirar a um futuro promissor, seja na barra do tribunal como juíza, ou a correr o mundo em funções diplomáticas.

Abril vai protegê-la de qualquer eventual violência doméstica exercida por um marido ou companheiro menos bem escolhido.

Terá direito à garantia de um salário mínimo (mesmo muito mínimo) se a vida não lhe sorrir, poderá fazer greve sem ser perseguida e, em caso de desemprego, terá a devida protecção. Tudo conquistas de Abril.

Graças à revolução, a menina do vestido cor-de-rosa não irá conhecer a censura, poderá dar azo à sua criatividade sem que ninguém a incomode e, votando, se for esse o caso, poderá com o seu voto, dar um contributo para a escolha do parlamento, do governo, de um presidente e da sua autarquia. Tudo bons exercícios de cidadania graças à revolução dos cravos.

Até aqui tudo bem! O futuro parece sorrir à menina do vestido cor-de-rosa. Estão asseguradas as conquistas de Abril. Quer dizer, algumas estão!

Confesso que desejo tudo de melhor à menina do vestido cor-de-rosa. Que lá para 2042, quando tiver 20 anos, consiga entrar numa faculdade pública e não esteja sujeita ao ferrete da média das notas.

Espero que, entretanto, Portugal tenha crescido, economicamente, o suficiente para que a menina do vestido cor-de-rosa consiga ficar por cá e encontrar o emprego que tanto ambiciona. Ou seja, que não tenha de emigrar para obter um salário decente. Oxalá a escolha da menina se possa fazer num leque de modernas e saudáveis empresas criadas, entretanto, no país que, finalmente, além de "crescer acima da média europeia", esteja então entre os quinze países mais desenvolvidos da União Europeia. E que o PRR, Plano de Recuperação e Resiliência, vulgo bazuca, tenha dado um contributo para esse salto no ranking europeu. Supostamente é para isso que ele serve!

Desejo que, graças ao desenvolvimento do país e da riqueza criada, a menina quando tiver uma dor de barriga ou qualquer outro problema de saúde não tenha de esperar sete ou oito horas nas urgências de uma unidade hospitalar do SNS. Ou se precisar de uma intervenção cirúrgica, a menina do vestido cor-de-rosa consiga fazê-la no prazo razoável de um ou dois meses e não tenha de aguardar anos.

Desejo, sinceramente, que a menina possa ser acompanhada por um médico de família e que não vá juntar-se aos 1,2 milhões de portugueses que, embora vivendo no país com uma das maiores cargas fiscais da União Europeia, ainda não têm médico de família.

Espero, também, que se a menina tiver um problema com a Justiça consiga resolvê-lo em tempo útil e não fique a aguardar oito, dez ou quinze anos até que saia uma sentença de um tribunal.

Eu quero muito que a vida sorria à menina do vestido cor-de-rosa, quero que ela tenha uma casa a uma renda aceitável, e que se precisar de recorrer ao Estado para obter uma habitação não vá engrossar o número das 25 742 famílias que o IHRU (Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana) identificou como tendo graves carências habitacionais.

Boa sorte, pois, menina do vestido cor-de-rosa!

E, se tudo correr bem, espero que em 2042 celebres o 25 Abril com todas as conquistas a que tens direito o que, por agora, talvez as mais importantes, ainda sejam uma miragem. Que em 2042 sejas, então, a protagonista improvável por mais e melhores razões do que foste este ano.


Jornalista

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt