A mecânica dos mundos em ponto pequeno

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Pode dizer-se que Miguel Palma (n. Lisboa, 1963) é uma espécie de artista engenheiro. O seu trabalho caracteriza-se pela criação de mecanismos inteligentes que reproduzem certos aspectos do mundo contemporâneo. Os seus pontos de interesse estão sempre relacionados com uma leitura simbólica do mundo industrializado e automatizado.

A mecânica surge neste contexto enquanto modo de reproduzir os modelos que orientam a construção de um certo tipo de contemporaneidade. Mas não se trata de um levantamento topográfico dos lugares que caracterizam as máquinas que organizam e constroem o nosso quotidiano. O olhar do artista é próximo do de uma criança ávida em ver o interior das coisas e perceber como é se podem desconstruir e reconstruir as coisas que as suas mãos tocam: desmontam os objectos e voltam a montar, saciando assim a sua curiosidade pelas estruturas complexas.

Um carácter lúdico e infantil desaparece a um segundo olhar e no seu lugar surge uma forte metáfora crítica das noções de progresso e de futuro, tão próprias do séc. XX. E é aqui que se revela a sua eficácia conceptual e crítica. Pode dizer-se, usando as palavras de John Welchman sobre o artista, que na sua obsessão pelos carros se cruza a curiosidade da jovem criança, o jovem adulto cheio de testosterona e o conhecedor ou coleccionador. Esta pujança que se sente nos seus trabalhos deriva do modo como cada um dos seus mecanismos corresponde à tensão de levar certos efeitos a um limite: velocidade, destruição, metáforas artísticas, etc...

Sob a aparência de um jogo infantil com os limites - da nossa percepção, da velocidade, da incorruptibilidade das coisas, etc. - esconde-se um ímpeto de conquista através da criação de mundos em ponto pequeno. Desde muito cedo que este artista se dedica à construção de máquinas, mecanismos, modelos, engenhos cuja funcionalidade se estende da potencialidade mecânica à acutilância estética utilizando um extremo rigor modelar.

Podemos, genericamente, dizer que se tratam sempre de engenhos destinados a cumprir funções determinadas, as quais têm um âmbito que se estende da pura invenção mecânica e modular a um significado artístico. Engenho (1993) é um desses casos: um carro inspirado nos carros usados nas corridas automobilísticas dos anos 30 e que o artista conduziu de Lisboa para o Porto, para a inauguração da exposição em Serralves "Imagens para os Anos 90".

O carácter pioneiro, o risco e a sua funcionalidade constituem uma espécie de programa que o trabalho de Palma protagoniza. Se os automóveis são um eixo do trabalho do artista, a criação de ambientes que reproduzem a possibilidade de pequenos mundos sustentáveis é outro desses eixos.

Em Carbono 14 (1998) é exactamente isso que acontece: um corte geológico apresenta uma cidade enterrada. Guardada numa caixa de acrílico, esta cidade dá-se a ver através das suas múltiplas dimensões e enquanto uma totalidade funcional. Uma espécie de mundo miniaturizado que vai sendo revelado através da máquina agrícola que está no seu topo. Os contrastes, as camadas, as diferentes famílias de objectos que aparecem conjugadas, e que se podem ver nesta peça, são uma nota dominante em muita da produção de Miguel Palma.

"O Mundo às Avessas" é uma exposição em que a coerência do seu percurso artístico e as suas qualidades formais, mecânicas e conceptuais são evidenciadas num conjunto significativo e pertinente da obra do artista. |

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