A marmota educativa

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Todos os setembros lembram o O Feitiço do Tempo. Neste filme de 1993, Bill Murray é um repórter meteorologista destacado para uma vilória para fazer a cobertura do dia da marmota, uma festividade local assente na crença de que se a marmota Punxsutawney Phil sair da sua toca o inverno acaba mais cedo nesse ano. O repórter acaba preso num time loop e acorda e volta a acordar sempre no mesmo dia.

É isto o nosso setembro educativo. Para além de centenas de euros em manuais escolares, com a circunstância curiosa de um manual de hoje serem pelo menos dois livros e mais cadernos de fichas e atividades, há sempre o regabofe do concurso de professores. Todos os anos concursos, turmas sem professores, professores sem escolas e professores em várias escolas ou com várias turmas, horas infinitas de discussão na praça pública. Os sindicatos exigem a demissão dos ministros, os ministros remendam a questão, pedem ou não desculpa, e ali por alturas do São Martinho já ninguém se lembra da barafunda do concurso. Até ao próximo setembro.

Há duas questões: uma mais imediata e outra mais importante. A mais imediata é saber se tem de haver erros; a mais importante é saber se tem de haver concursos anuais.

Erros destes no concurso de colocação de professores não é fatalidade ou karma, é ineptidão organizacional. Há muitos anos, tinha acabado de conhecer a minha mulher, vivíamos juntos há poucos meses quando o carteiro entregou mais uma encomenda da Amazon em nome dela. Abri e eram dois livrinhos usados de uma coleção ilustrada de sadomasoquismo. Ou a Amazon se tinha enganado, ou eu. Na verdade, o erro tinha sido do alfarrabista e o episódio valeu umas boas chicotadas, digo, gargalhadas. Em 20 anos de compras online, centenas de livros, milhares de euros, foi o único erro. Em largas centenas de milhões de encomendas, a taxa de erro nas entregas da Amazon é residual. E se a Amazon é comparação demasiado sofisticada, é pensar nos CTT, no Continente online, ou mesmo no exército português, que movimentou centenas de milhares de tropas em vários continentes durante décadas. Bastaria até pensar na colocação anual de 40 mil alunos no ensino superior - sem erros.

Claro que, para reduzir erros, convém não estar sempre a mudar as regras. É o fetiche da reengenharia pedagógica, em que cada ministro e secretário de Estado não resiste a deixar o seu cunho do seu nome para a posteridade, através da fixação do número de minutos semanais que os meus filhos dedicam ao Estudo do Meio. Não duvido que as intenções sejam as melhores, e é sempre difícil criticar uma função pouco apelativa (e ser ministro da Educação apetece tanto como ser cristão em Raqqa), mas sinto que há governantes com alguma propensão para autoflagelação (mesmo sem ter lido os livros que me chegaram por engano).

É inevitável que todos os anos tenhamos de abrir um concurso de professores desta magnitude? Naturalmente que não. As alternativas estão há muito identificadas - e algumas até já foram testadas: mais autonomia para as escolas e agrupamentos, desde a contratação por períodos longos dos seus docentes à possibilidade de pagamento de horas extraordinárias aos professores da escola para substituir aquela professora de Matemática que meteu baixa porque é alérgica ao giz; da maior mobilidade dentro do agrupamento à possibilidade de diferenciação salarial. É claro que isto implica repensar um sistema centralizador, assente na contratação de muitos efetivos e na possibilidade de, ano após ano, os professores se irem chegando uns metros mais perto de casa.

Mas há algo mais grave em tudo isto. A passividade com que, durante 11 meses, não nos preocupamos com o concurso de professores e a facilidade com que esquecemos os setembros negros da educação são o espelho de uma sociedade que se relaciona mal com o tempo, de um povo que quer ter bancos e start-ups mas que é ainda muito rural e regido a solstícios e equinócios, que se atrasa, que não planeia, que não valoriza o tempo, o seu escasso e precioso tempo. É impossível planear um ano familiar em julho, uma atividade extracurricular, uma consulta médica ou uma explicação de Físico-Química. Fica um país à mercê de horários, que são organismos com vida e vontade próprias, e já se sabe, só saem da toca lá para meados de setembro. Como se o mundo acabasse sempre a 31 de agosto e recomeçasse a 1 de setembro.

Em O Feitiço do Tempo, o repórter acaba por aproveitar aquele dia que nunca muda para ir refletindo sobre a sua vida e, como agora se diz, ir melhorando como pessoa. E é para isso que deve servir a marmota educativa. Para pensarmos em conjunto se queremos que todos os setembros rebente-a--bolha, volte tudo às posições iniciais, e ande à roda a vida de milhões de professores, pais e alunos.

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