Na madrugada de 25 de Março de 1949, a única força política organizada que fazia frente ao regime salazarista perdeu metade dos seus dirigentes máximos. Foi o resultado de um bem-sucedido assalto da PIDE à casa onde moravam clandestinamente Álvaro Cunhal e, provisoriamente, Militão Ribeiro. O futuro secretário-geral do PCP tinha alugado recentemente a habitação e para lá fora acompanhado de uma camarada de modo a fazer parecer que formavam um casal. .Tudo aconteceu muito rápido e com os três habitantes daquela casa, isolada no Casal de Santo António, a dormir, até que um estrondo violento os acordou. Não tiveram tempo para qualquer reacção, pois os agentes PIDE há dois dias que faziam o cerco à casa, depois de o autarca de Águeda, José Feio, ter alertado para a presença de pessoas e actividades suspeitas. .A brigada, chefiada por Jaime Gomes da Silva, não esperava deparar-se com o homem mais procurado em Portugal e, algemado, foi levado para 11 anos de prisão..A prisão de Álvaro Cunhal fê-lo entrar definitivamente para a História política de Portugal e vai projectar o futuro secretário-geral no PCP - e no universo comunista em expansão - com um relevo que mais nenhum militante português obterá. Até porque se a sua grande actividade subversiva, capacidade de liderança e de organização já lhe garantiam esse lugar, da detenção resultará um estatuto de mártir sustentado em oito anos de prisão solitária, três em rigorosa vigilância, um cativeiro que finalizará com uma fuga colectiva e espectacular do Forte de Peniche. .A única sobrevivente do trio caído na casa do Luso chama-se Sofia Ferreira e tinha então 26 anos. Fica, tal como Cunhal e Militão, numa cela isolada na Rua do Heroísmo até que são transferidos para Lisboa para serem julgados. Seis décadas depois, doze anos de prisão e muitos de clandestinidade e exílio, ainda não se esqueceu de todos os segundos vividos naquela madrugada e de como receou pelo futuro do PCP enquanto analisava o que acontecera. .Temeu mais pela vida de Militão que pela de Cunhal porque o seu passado político e o pai advogado o protegeriam perante a opinião pública de uma morte na cadeia, mas não teve dúvidas de que a queda da casa poderia ser bastante prejudicial para a estrutura do PCP. .Ajudara a dactilografar muitos documentos e a arquivá-los e conhecia o secretismo do trabalho do camarada do Secretariado. Garante que as cifras utilizadas evitaram que o sucesso da repressão que se seguiu fosse devido aos documentos existentes na casa do Luso. Quando se lhe pergunta se desconfiaram de movimentações nas horas que antecederam a queda, a resposta é sim e entende-se que Cunhal as subestimou e que a presença de Militão fugido de outra queda chamou a atenção..Para Sofia Ferreira a vida clandestina não era a desejada e a "luta por um futuro melhor para o País" obrigava a muitas privações e riscos: "A PIDE tinha todos os poderes para reprimir, prender e assassinar, e uma rede de informadores ao seu serviço." Isolada da família e dos amigos até ao 25 de Abril de 1974, Sofia Ferreira não se esqueceu do espancamento sofrido na prisão do Porto, da morte de Militão nem do julgamento de Álvaro Cunhal no Tribunal da Boa Hora, mas prefere falar do que o colectivo fez. 60 anos depois dessa madrugada, o seu único receio é o "branqueamento do regime fascista que está a acontecer".