Bruxelas, donde regressei há poucos dias, está longe de ser uma cidade bem amada. Para esse desamor contribuíram ativamente os seus habitantes, que se encarniçaram nos últimos séculos em destruir a sua cidade: primeiro soterrando o rio Senne e tapando os canais, para abrir largas avenidas haussmannianas sobre os prédios medievais demolidos, trabalho do século XIX; depois, destruindo os mais belos e representativos edifícios "Arte Nova" para edificar torres e arranha céus de perfil nova iorquino e fealdade profunda, obra esta do século XX. Tudo isto deu a Bruxelas uma patine cinzenta industrial, que veio harmonizar-se com a névoa e o mau tempo para criar os maiores anticorpos da beleza..É depois uma cidade, desde que é capital europeia, onde se vai essencialmente para trabalhar, em reuniões que duram muitas vezes pela noite fora e mal nos deixam tempo para irmos à livraria Tropismes saciar-nos de livros ou para degustarmos sem pressa um bom jantar num dos muitos restaurantes de Bruxelas, a fim de esquecer o que engolimos à pressa, ao almoço, nas cantinas das instituições europeias..E, no entanto, a beleza e o mistério de Bruxelas estão ali, disfarçados, como um sorriso tímido que não ousa vir impor-se. Tive oportunidade na minha viagem recente, isenta de qualquer missão que não fosse estritamente familiar, de percorrer sem destino as ruas de Bruxelas, de atravessar de bairro para bairro o seu centro mais antigo, sem objetivos definidos, naquela errância do "flâneur" que não é possível quando o tempo é medido e curto. As cidades como Bruxelas não vêm impor-se pela grandeza à nossa atenção, elas rompem de repente com uma beleza nova, com um centro popular intensamente vivido, que se vêm assim oferecer à nossa visão, num jeito grato de quem sabe que a sua alma nunca é dada numa primeira impressão..Sem ter que me misturar agora com a atividade frenética do grande pólo internacional que é Bruxelas, eu tive um sentimento de reencontros vários. E o primeiro foi com Almeida Garrett, infeliz embaixador junto do rei dos Belgas, onde não teve qualquer apoio ou simpatia da parte do nosso governo e da nossa rainha D. Maria II. Amadeu Lopes Sabino, no seu excelente romance "A Lua de Bruxelas" mostra-nos as aventuras e digressões de Garrett na sua breve e frustrante experiência diplomática, onde sofreu mais enxovalhos do que sucessos..Depois, se Bruxelas vive na poesia portuguesa através de vozes tão grandes como as de Vitorino Nemésio ("Lá vai Bruxelas rendeira/Redonda de véus de névoa/Toda maciça de seios/e olhos do céu copiados") e Herberto Helder (Bruxelas, um mês. De pé sob as luzes encantadas./ Em noites assim eu extinguiria minha alma/ cantando humildemente.), se Bruxelas proporcionou a Rodrigues Miguéis os sucessivos quartos alugados, onde ele imaginou Léah e onde concebeu Uma Aventura Inquietante, é hoje em algumas novelas e romances de Amadeu Lopes Sabino que o espírito de Bruxelas aparece com mais força na literatura portuguesa, agora que os portugueses, como todos os europeus, vivem o essencial de muitas decisões vinculativas aplicáveis na nossa ordem jurídica nos chegarem através de Bruxelas..Mas não podemos esquecer aquele jovem e intrépido jornalista que, começando por viver num modesto apartamento na imaginada Rue du Labrador, veio mais tarde a conhecer uma transformação de fundo na sua vida, após ter encontrado no marché aux puces do bairro de Marolles o modelo do navio La Licorne, que o arrastou e aos seus amigos para uma outra aventura inquietante. Falo, evidentemente, de Tintin..A luz de Bruxelas pode ser muitas vezes tão só a dispersão de uma baça claridade na bruma e nas névoas que rodeiam a cidade em grande parte do ano. Mas a lua de Bruxelas chama-nos sempre, como o fez a Garrett, para a beleza dos céus do Norte e para uma saudade renovada da nossa pátria, que entende finalmente que somos tão europeus como portugueses. Bruxelas chama assim, desse modo subtil e discreto, por nós.. Diplomata e escritor