A longa agonia de Michael Jackson

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Michael Jackson está tão abalado que os amigos receiam que chegue ao ponto de se suicidar. Parece que o mundo lhe está a cair em cima e ao mesmo tempo o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. A noite de quarta-feira em Neverland terá sido de horror para o cantor. Há duas semanas que os mais de cem trabalhadores do rancho não recebiam ordenados e na manhã do dia seguinte ia estar frente-a-frente com o seu principal acusador no processo por pedofilia. Houve uma reunião que durou toda a noite.

Depois da maratona nocturna de discussão, Michael Jackson não comparece a tempo para o julgamento na quinta-feira. O juiz Rodney Melville considera o atraso um desrespeito para com o tribunal, e dá um prazo de uma hora ao réu para se apresentar caso isso não aconteça, será preso para haver a certeza de que chega a horas ao tribunal.

É uma figura patética de Michael Jackson que chega ao tribunal de Santa Maria três minutos depois de expirado o prazo maquilhado e de lábios pintados, mas desgrenhado, vestido com uma camisola branca, calças de pijama azuis, chinelos, um blazer preto, pedindo ajuda a um guarda-costas para se apoiar. Diz que o atraso foi devido a uma dor aguda nas costas, que o obrigou a ir ao hospital.

Suspeita-se imediatamente que a verdadeira razão será o ter que enfrentar o começo de um processo que lhe pode valer 20 anos de prisão. O primeiro dia de audiências é fundamental, e o advogado de Jackson, Thomas Mesereau, passou uma hora agarrado ao telemóvel preocupado com a chegada a horas de Michael Jackson ao tribunal.

No tribunal, o jovem que acusa Michael Jackson de o ter molestado, conta detalhes de uma história que começou em 2000, quando ele tinha dez anos de idade e estava hospitalizado com câncro. Um dia, numa espécie de último desejo, disse que queria encontrar-se com os seus artistas favoritos Michael Jackson, Adam Sandler, Chrus Tucker e Jim Carrey.

Jackson não apareceu no hospital, mas telefonava ao jovem e mantinha com ele longas conversas. Em Agosto, quando o jovem saiu do hospital, foi convidado pelo cantor a visitar com a família o rancho Neverland.

Estabeleceram uma relação mais íntima. Jackson brincava com o agora acusador e o irmão, então com 9 anos, no parque de diversões do rancho, mas ao fim do dia, enquanto a mãe e a irmã ficavam instaladas em aposentos para hóspedes, os dois rapazes dormiam no quarto de Michael Jackson.

Só voltaram ao rancho em Setembro 2002, altura em que o jornalista Martin Bashir estava a rodar o documentário "Vivendo com Michael Jackson". Nele o rapaz mais velho dizia considerar Jackson como um amigo e um pai, embora agora garanta ter sido o cantor que o induziu a dizer isso, e que a participação no documentário era como que uma audição para uma carreira como actor. No documentário, Michael Jackson defendia não haver nada de mal em partilhar a sua cama com crianças.

Tudo começou a correr mal para Jackson quando o documentário foi transmitido em 3 de Fevereiro de 2003 na Inglaterra. As declarações dele causaram uma onda de repúdio a nível mundial e os media recordaram o caso passado dez anos antes em que uma acusação contra Michael Jackson por ter molestado uma criança foi resolvida com uma indemnização de mais de 20 milhões de dólares.

Uma semana depois da exibição do documentário, o Departamento de Serviços de Crianças e Família de Los Angeles recebeu um telefonema de uma funcionária do distrito escolar que tinha visto a transmissão, apresentando queixa contra a mãe das crianças por negligência e contra Michael Jackson por abuso sexual de menores. Foi essa queixa que iniciou a investigação, as buscas em Neverland, a rendição de Jackson ao tribunal com transmissão directa pela televisão. O processo começou mal. Da primeira vez que Michael Jackson foi a tribunal, chegou atrasado, foi admoestado pelo juiz e, à saída, subiu para a capota de um carro e dançou para as centenas de fãs presentes. Às 830 da manhã de amanhã (16:30 em Lisboa), recomeça o julgamento e Michael Jackson vai por certo chegar a horas.

Contrastes de um cantor 'pop'

É difícil um artista estar ao longo de 41 anos de carreira quase sempre no topo e não ser alvo constante das revistas de mexericos. Mas até nisso Michael Jackson é especial não há memória de alguém ter chamado para si tanta atenção.

A carreira de Jackson começou aos 5 anos de idade, quando foi líder dos Jackson 5, composto por ele e os irmãos Jackie, Jermaine, Tito e Larlon. Os primeiros quatro singles do grupo chegaram todos ao primeiro lugar do top da música americana. Em 1977 Jackson tem a sua primeira experiência no cinema, no papel de Espantalho no musical The Wiz, em que Diana Ross fazia de Dorothy, e logo a seguir lança com Quincy Jones o álbum Off The Wall, que é o primeiro a colocar quatro temas no número 1 de singles nos Estados Unidos.

Em 1982, Michael Jackson lança Thriller, o álbum campeão de vendas em todo o mundo (mais de 50 milhões de cópias) e sete singles no top musical americano. O álbum é acompanhado por um vídeo de 14 minutos, que bate igualmente todos os recordes de vendas. Seguem-se Bad, em 1987, e Dangerous, em 1991. Em 1988 fez a sua primeira tournée mundial. A segunda foi em 1992, fazendo concertos em países que nunca tinham assistido a um espectáculo pop.

Em 1994 casa-se com Lisa Marie Presley, a filha de Elvis, de quem se divorcia 19 meses mais tarde. Em 1996, depois do lançamento do seu quinto álbum, HIStory, casa-se com Debbie Rowe, enfermeira que o tratava da doença de pele de que sofre, e de quem tem dois filhos (por inseminação artificial), Prince Michael Joseph Jackson, nascido em 1997, e Paris Michael Katherine Jsckson, um ano mais tarde.

Em Setembro de 2001 celebra 30 anos de carreira a solo com dois concertos esgotados em Nova Iorque. No mês seguinte lança Invincible. É nesse ponto que as suas relações com a Sony esfriam, com Jackson a acusar a editora de propositadamente ter contribuído para o fracasso do álbum por não o ter promovido capazmente.

Pelo caminho ficam as múltiplas operações plásticas que acabaram por lhe transformar o rosto numa máscara, o dormir numa câmara de oxigénio para não envelhecer, a despigmentação da pele, a fobia de infecções que o leva a usar quase sempre uma máscara tapando o nariz e a boca, as roupas espaventosas, o chapéu de chuva que o protege do sol e o episódio do balancear do filho ainda bebé de uma janela de um quarto de hotel na Alemanha.

Michael Jackson cultiva a imagem de "Peter Pan", de alguém que não cresceu. Neverland é um castelo de fadas com um parque de diversões, que frequentemente abre a menores. Diz que as crianças são a sua principal preocupação, e como prova disso criou a Fundação para Curar o Mundo, destinada a melhorar a vida das crianças em todo o planeta. Mas o primeiro processo por pedofilia, em 1993, resolvido com um pagamento de mais de 20 milhões de dólares, levou a que o mundo começasse a ver de outra forma o interesse de jackson pelas crianças.

M.R.F.

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