A liberdade, assim, serve para quê?

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Temos liberdade para dizer, temos liberdade para ouvir, temos liberdade para tomar partido, temos liberdade para não ter partido, temos liberdade para escolher Deus, temos liberdade para recusar Deus, temos liberdade para ler, temos liberdade para ouvir, temos liberdade para cantar, temos liberdade para escolher, temos liberdade sexual, temos liberdade para consumir, temos liberdade para montar um negócio, temos liberdade para circular, temos hoje em dia muitas liberdades que, quando eu nasci, simplesmente não existiam na sociedade portuguesa. Hoje é Dia da Liberdade, tornada possível em Portugal a partir do dia 25 de abril de 1974, e apetecia-me muito saudar essa conquista da Revolução dos Cravos. O problema, a questão que esmorece os meus planos de celebração, está no aparente valor, próximo de zero, para o bem comum em que a soma de todas essas liberdades individuais, desencantadamente, parece resultar.

Eu, o leitor, todas as pessoas que nos rodeiam, somos, em princípio, livres de nos exprimirmos e, em muitos aspetos fulcrais do dia-a-dia, somos também livres de agir... Mas de que nos serve essa liberdade?

Somos livres de dar opinião, mas alguém com capacidade para decidir nos ouve? Se até quando votamos em vencedores eleitorais acabamos, tantas vezes, por ver traídas as promessas que motivaram a única expressão institucional de exercício da liberdade política que está acessível a todos... De que serve, assim, o voto?...

E estamos preparados para dar opinião? A troca de insultos generalizada na internet não é uma arma para quem está no poder se perpetuar, ancorado, como antes do 25 de Abril, no argumento da ignorância ou da impreparação do povo para se governar a si próprio?... A quem aproveita tanta raiva?

Somos, dizem, livres de participar na vida pública, mas as cliques que dominam os principais partidos, as associações cívicas, os clubes, as empresas, as ONG, deixam-nos ser relevantes? Ou limitam-se a usar-nos para arregimentar apoios formais, distribuir pequenas benesses e fortalecer o cordão sanitário que afasta o cidadão comum?

Somos livres de trabalhar onde quisermos, mas recebemos o quinhão justo da riqueza que criamos? Podemos influenciar decisões verdadeiramente importantes na empresa onde trabalhamos? E, se não há trabalho para todos, somos realmente livres ou preferimos, aflitos, aprisionarmo-nos, silenciados, a uma qualquer autoridade ou empreendimento que nos pague um sustento mínimo?

Sentimos, em suma, que os poderes político, económico, financeiro, judiciário, cultural, informativo, religioso ou desportivo refletem, nos múltiplos processos de decisão que moldam a sociedade, o resultado que deveria ser a consequência óbvia do exercício da liberdade individual de cada um?... Infelizmente, para uma grande maioria, a resposta é não.

Para alguns, porém, há algumas liberdades decisivas na vida de todos mas são relativas à economia: a liberdade de movimento de produtos e mercadorias, a liberdade de movimento de serviços ou a liberdade de movimento de capital. As liberdades dos fazedores de dinheiro dominam a sociedade mas condicionam muitas outras liberdades e limitam a própria democracia... Está aí, é uma evidência, uma raiz para o reforço dos populismos autoritários neste lado do planeta.

É, portanto, para salvar a democracia que devíamos tentar eliminar este desequilíbrio entre as poucas liberdades que decidem a configuração do mundo e do país e as muitas liberdades que, manipuladas ou inutilizadas, apenas frustram, desiludem ou alienam o cidadão comum... Dava outro 25 de Abril.

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