A injustiça de ser filho do meio

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Nenhum filho devia ser filho do meio. Ser filho do meio é uma tremenda injustiça. Vive-se num mundo morno, tipo a meio caminho de alguma coisa. Nunca se é, está-se. É uma condição morna, tipo bife nem bem nem mal passado, Coca-Cola natural, bandeira amarela na praia. Nós, pais, não temos a consideração devida pelo filho do meio: passamos as nossas vidas preocupados com o mais velho e a mimar o mais novo. O do meio vai andando. Sobrevive. Ele bem que se estica, que tenta ocupar o seu espaço no meio de duas potências, mas não consegue. O seu território está limitado, circunscrito ao que sobra, e os seus adversários têm um aliado de peso na figura dos pais. O filho do meio é tipo Polónia - onde passam por cima de quando em quando sem consideração ou cerimónia. Herda os restos do irmão mais velho e é responsável pela transmissão ao mais novo; leva do mais velho mas não pode bater no mais novo; tanto é considerado o mais velho dos mais novos como o mais novo dos mais velhos conforme dá jeito aos pais. E cede aos dois irmãos: a um por ser mais velho e ao outro por ser mais novo. Nesta dinâmica em que nunca se recebem camisolas novas nem os mimos que só se dão aos mais novos, ele vive a espernear, contestar, brigar e desafiar. Mas faz tudo isso por justiça, em nome da justiça. Ele também quer ser especial - único - mas é apenas essencial - só é em relação aos outros. Por ser o equilíbrio para que os outros possam ser considerados aquilo que são, o cordeiro de sacrifício para que os irmãos possam ter os privilégios que têm. No entanto são estas adversidades que fazem dos filhos do meio puros sangue, cavalos de corrida de primeira água. Resistentes, sobreviventes, justos, combativos e corajosos. (É ir à Polónia e percebe-se.) Na verdade são eles o apoio dos irmãos e são eles o garante da estabilidade. É com eles que os pais contam para controlar o mais novo ou lapidar o mais velho e são eles que definem os parâmetros de justiça familiar. O diapasão é o filho do meio. Mas em vez do tratamento especial que lhes devíamos dar, damos-lhes tratamento nenhum. Com eles somos objetivos: enquanto os filhos do meio são malcriados, os mais novos são "rebeldes" e os mais velhos têm "personalidade". Ser filho do meio devia ser uma qualificação nas habilitações profissionais: quem sobrevive a uma família estando no meio, sobrevive a qualquer desafio profissional ou cenário de guerra. Era entregar o mundo aos filhos do meio e não precisaríamos da ONU para nada. Diplomacia, equilíbrio, firmeza e justiça é com eles. Mau feitio também, é verdade, mas percebe-se.

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