A história tumultuosa de um coração

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O Diário Íntimo, de George Sand, traduzido com rigor e delicadeza por Carla da Silva Pereira, não é propriamente um inventário da existência desta mulher de todas as audácias, pseudónimo literário de Amandine Lucie Aurore Dupin, a «bonne dame de Nohant», baronesa de Dudevant, com sangue tão aristocrático como plebeu.

A obra acaba de ser publicada numa edição de qualidade pela Antígona. E dá razão a Anaïs Nin que viria a deixar-nos um diário marcante, entendido como «obra de amor», espécie de confidente, amigo das boas e sobretudo das más horas, documento privado, laboratório da criação literária, instrumento mágico contra o esquecimento.

As intuições românticas espraiam-se nas ideias de ilimitação, de infinitude, no conceito de fragmento, obra em miniatura, expressão de uma totalidade em redução, unidade feita de instantes, solidária como uma concepção antropocósmica do mundo. Pois o Diário Íntimo, de Sand, é um livro fragmentário no melhor do romantismo, permanecendo em aberto enquanto meio privilegiado de vivência no presente. Diz a autora: «Escrever um diário é renunciar ao destino (...), confessar ao implacável que nada mais esperamos dele, que nos acomodamos todos os dias, e que já não há relação entre este dia e os restantes». E a escrita surge «quando as paixões estão extintas, ou quando atingem estados de petrificação que nos permite explorá-las como montanhas das quais a avalancha não se desprenderá».

Nessa medida, esta obra ilustra a história tumultuosa de um coração, entendendo Sand o amor como um sinónimo da vida, e não somente a felicidade. Amar dir-se-ia, para a escritora de Indiana, um direito superior do ser humano, espécie de dever e culto divino. Eis, portanto, uma personalidade doce e conturbada sem perder a «virilidade». Alguém que teve a coragem de se vestir de homem, fumar cachimbo, acreditar na missão social da literatura. Alguém que defendeu a causa das mulheres e denunciou a alienação do casamento, demasiado fogosa para se contentar com o que oferece a vida real, demasiado ousada ou demasiado lúcida para se render ao encanto das crenças supersticiosas, agindo em conformidade com as ilusões do cérebro, os impulsos do coração e a sua embriaguez ardente. O diário dá-nos conta disso de forma envolvente.

Estamos, pois, noutro campo que não o do distanciamento racional e mais contido de História da Minha Vida, a autobiografia, relato da sua vida «moral» de artista e intelectual na procura de uma «verdade abstracta», sem fazer do leitor confidente íntimo. Embora escrita pela mesma romancista prolífica (à roda de 150 volumes), boémia, grande amorosa, militante socialista, mulher a quem Elisabeth Brow- ning dedicou sonetos e Heine colocava uns degraus acima de Hugo, esta obra não partilha do espírito de o Diário, tantas vezes assolado por estados de espírito tormentosos e sombrios, aliados amiúde à impossibilidade da paixão. Escreve Sand: «As seduções deixam de resultar, pois já não acreditamos poder ser seduzidos, e chega-se a uma das grandes conquistas da sabedoria: a abstenção, a resignação, a ausência de aspirações.» E, no entanto, Sand amou até ao fim...

Se, neste diário, que funde razão, sentimento, poesia e uma boa dose de clarividência, a pena tantas vezes escorre sobre as paixões perdidas, num crescendo de descontentamento, aversão, fúria, frieza e humilhante escárnio, não é menos certo dizer-se que presenciamos uma dança das palavras ao som da música de Franz Liszt ou de Beethoven, num voo embebido nas sombras da noite, num «pandemónio de inquietações e lamentos».

Nele encontramos, por outro lado, dissertações sobre a educação, a condição feminina, a felicidade, o socialismo, Deus como entidade não separada de nós, ou conselhos sobre o desalento, como estes: «Procurar, pois, observar o emprego do tempo e as ocupações da alma, aprendendo a reconhecer as causas acidentais e quotidianas das crises (...); nos momentos de lucidez, habituar-nos a prever as regressões, para que mesmo no delírio possamos conservar a consciência da tranquilidade que não tardará; (...) evitar o choro, porque as lágrimas são debilitadoras, e ao abatimento seguem-se reacções violentas e decisões nefastas»...

Os fragmentos de que este diário é feito evocam um fogo de artifício que reflecte a vida apaixonada de Sand, cujos romances (Indiana é devedor do romantismo de Chateaubriand e do individualismo de Rousseau) denotam um espírito confessional, lírico, próximo do poema em prosa. Celebra-se neles, bem como na escrita diarística, a paixão sensual e idealista, excessiva, revelando com frequência o amor em luta contra o preconceito. A autora de Lélia,«metade mística, metade artista», aborda a vida «exactamente como um homem», como referiu Henry James, mas foi, segundo Flaubert, a mulher mais feminina que o autor de Madame Bovary conheceu.

O seu Diário Íntimo dá-nos a conhecer uma sensibilidade dolorosa, rebelde e irreverente, romântica e republicana, resistente e democrata, que escreve: «A partir do momento em que a vida se torna suportável, já não carece de análise». Deste livro ressalta, portanto, o ser apaixonado, tantas vezes comparado a Byron, personificação do coração romântico. Sand foi uma mulher à frente do seu tempo que viveu a força da imaginação, a agitação e o delírio, mas também a experiência que conduz ao saber.

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