Com uma clarividência política digna de nota, as elites de Roma afirmavam que o Império, o mais extenso e poderoso da Antiguidade, duraria exatamente o mesmo que o seu monumento mais emblemático: o Coliseu. Enquanto este estivesse de pé, a providenciar pão e circo (panem et circense) à multidão, nada haveria a temer. Com capacidade para 50 a 80 mil espetadores, o gigantesco edifício, ainda impressionante 2000 anos após a construção, foi inaugurado no ano 79 d.C, no império de Tito, e era usado para combates de gladiadores, com ou sem animais selvagens pelo meio, execuções públicas, simulações de batalhas marítimas ou dramas baseados na mitologia clássica..A sua História (e o modo como foi replicado por todo o Império, incluindo na Península Ibérica) é agora reconstituída numa superprodução internacional do Canal História, que estreará em Portugal esta 2.ª feira, cerca das 22.00 (MEO, canal 21; NOS, 121; Vodafone, 135 e Nowo, 24)..Composta por oito episódios transmitidos semanalmente, esta série propõe-se contar a ascensão e queda do Império Romano, através de um dos seus edifícios mais importantes e a partir das experiências dos homens e mulheres (sim, que as houve, como veremos adiante) que lutaram na sua arena. Mas também estarão em foco os desafios da construção do Coliseu e o modo como, ao longo de séculos, este se constituiu uma referência para a Arquitetura (sobretudo na área de recintos para espetáculos) e para a Engenharia..No primeiro episódio, centrado na figura tão mítica como trágica do gladiador, assistimos ao confronto entre Prisco e Vero diante de Tito, celebrado pelo poeta Marcial, no seu Livro dos Espetáculos, o primeiro combate em que o imperador entregou aos dois guerreiros um rudius (espada de madeira) que simbolizava a vitória de ambos, a salvação e a liberdade. Isto porque - importa dizer - os gladiadores eram quase sempre prisioneiros de guerra reduzidos à condição de escravos e vinham das várias zonas deste Império que, no seu auge, se estendia do Atlântico ao Mar Cáspio e do Sara aos rios Danúbio e Reno..Mas "conheceremos" ainda, nos episódios seguintes, Mevia, cidadã livre de Roma e de respeitadas famílias que chocará muitos ao decidir lutar na arena (sendo uma das várias mulheres que o fizeram durante o Império e sobre as quais muito pouco se sabe), Inácio de Antioquia, considerado um dos pais da Igreja e condenado à morte no Coliseu por professar o cristianismo nos tempos de Trajano, e até Cómodo, o único imperador que desceu da tribuna para lutar na arena, depois de se ter incompatibilizado com o Senado. Histórias de que nos restam excertos de textos de poetas, como o referido Marcial, Juvenal ou Plínio, mas sobretudo muitos vestígios arqueológicos.."Mas esta história também diz respeito a Portugal e Espanha", frisou na sessão de apresentação da série, que decorreu na Embaixada de Itália, em Madrid, a historiadora responsável pelo Departamento de Antiguidade Clássica do Museo Arqueológico Nacional, Ángeles Castellano Hernández. "Os romanos replicavam por todas as províncias a lógica da cidade imperial. Embora as escavações arqueológicas estejam sempre a revelar dados novos, hoje sabemos que existiam 230 pequenos coliseus por todo o Império, 30 dos quais ficavam na Hispânia e Lusitânia"..No território que hoje é Portugal, explicou a historiadora, conhecemos restos de pequenos anfiteatros deste tipo em Braga (antiga Bracara Augusta), Évora (Ebora), Conímbriga e Bobadela (concelho de Oliveira do Hospital). Não muito longe da raia está, aliás, o que se considera ser o mais antigo anfiteatro romano da Península Ibérica: em Carmona, na Andaluzia, com data aproximada de 70 a.C, o que o torna mais antigo que o próprio Coliseu..Estas províncias mais ocidentais contribuíram também com o seu quinhão de personagens para a História deste espetáculo brutal. Para além de muitos lutadores oriundos destas paragens (estão identificados mais de 50 e sabe-se que havia um campo de treino especializado na atual Catalunha) também houve cristãos martirizados. Foi o caso de São Frutuoso, queimado vivo em Tarragona em 259 d.C, mas muitos outros se seguiram..Ángeles Castellano Hernández chamou ainda a atenção para o facto da sorte dos gladiadores ser desigual: "Enquanto muitos morriam de forma crudelíssima na arena, também havia autênticas estrelas que ganhavam fortunas e eram seguidos pelos seus fãs. Alguns conseguiam, pelo mérito revelado em combate, libertar-se e arranjar boas posições sociais, como guarda-costas de senadores, por exemplo.".Apresentada como uma superprodução internacional, Coliseu combina recriações ficcionadas com atores reais e o testemunho de historiadores especializados no tema como Jerry Toner, Alexander Mariotti ou Darius Aryus e contou com a colaboração de instituições como o Museu Arqueológico de Nápoles ou o Parque Arqueológico do Coliseu de Roma, embora todas as cenas passadas ali tenham sido recriadas digitalmente uma vez que não é permitido filmar no interior. O Canal História faz parte da AMC Networks International Southern Europe e, segundo explicou o seu responsável Manuel Balsera, "procura agora recuperar a liderança no segmento documental que teve internacionalmente durante 11 anos consecutivos." Coliseu é parte dessa estratégia já "que os temas romanos agradam sempre aos telespetadores.".A apresentação pública desta série sobre o Império Romano na Embaixada de Itália em Madrid serviu também para divulgar na Península Ibérica a candidatura de Roma à Exposição Mundial de 2030. Para o embaixador Riccardo Guariglia, "esta é uma ocasião única para mostrar que, ao longo da sua História milenar, Roma foi sempre uma cidade voltada para o futuro." Tendo como lema "Pessoas e Territórios - Regeneração Urbana, Inclusão e Inovação", a candidatura é liderada por Carlo Ratti, professor do MIT e a sua proposta passa por construir um "jardim transcultural onde todas as culturas floresçam juntas". Roma concorrerá com Riade (Arábia Saudita), Pusan (Coreia do Sul), Odessa (Ucrânia) e a escolha será conhecida em outubro 2023, depois da Rússia ter retirado a candidatura de Moscovo em maio último. Recorde-se que a Itália já recebeu em Milão a Exposição Universal de 2015, onde recebeu perto de 21,5 milhões de visitantes. O CEO da Expo 2015, Giuseppe Sala, é o presidente da Câmara da cidade desde 2016..dnot@dn.pt