Amor, traição, homicídio, vingança e coroação. A história da rainha D. Inês, coroada só depois de morta, tem de tudo um pouco. Por essa razão foi, e continua a ser, contada e recontada através dos séculos, apaixonando historiadores, poetas, escritores e meros curiosos. Em 2005 faz 650 anos que D. Inês de Castro morreu e, devido ao fascínio que se tem por esta história verdadeira, comemora-se a data de forma bastante peculiar..As comemorações dos 650 anos da morte de D. Inês de Castroassentam num conjunto muito vasto de iniciativas (tais como exposições, peças de teatro, leituras de poesia e prosa, concertos, ciclos de cinema e colóquios) em Lisboa, Coimbra, Alcobaça e Montemor-o--Velho durante todo o ano. O dr. José Miguel Júdice, comissário das comemorações inesianas, explicou ao DN que existem iniciativas muito diferentes, "umas com uma parte de base histórica e outras mais vanguardistas que procuram trazer o tema para o século XXI". Acaba por haver, deste modo, um choque entre uma pura revisão de um ponto de vista histórico e uma aproximação modernista ao mesmo te-ma.. De qualquer maneira, o objectivo é o mesmo "lutar pela cultu- ra portuguesa; demonstrar que os grandes temas da história são actuais; chamar a atenção, até em termos turísticos, para as cidades de Montemor, Coimbra e Alcobaça (que são os grandes centros do culto inesiano); e incentivar a criação cultural", revelou o comissário. .Os preparativos para estas comemorações começaram há mais de um ano. Desses preparativos fez também parte a criação de uma associação entre o IPPAR - Instituto Português do Património Arquitectónico (através da Direcção Geral de Cultura de Coimbra), as Câmaras de Alcobaça, Montemor-o- -Velho e Coimbra, a Quinta das Lágrimas e a Fundação Inês de Castro para que o projecto pudesse ser executado. ."Foi um trabalho de equipa, que demonstra que podia ser repetido porque há outras figuras da história de Portugal que podiam dar anos equivalentes", explicou José Miguel Júdice. E este é mesmo outro dos objectivos da associação "que o projecto seja copiado à volta de outras figuras". .Realidade. Histórias de amor e tragédia há muitas. O que tem esta de tão especial para ser contada vezes sem conta ao longo de vários séculos? Consta que D. Inês de Castro era "mui formosa" e que D. Pedro se apaixonou logo por ela. Mesmo o facto de D. Pedro ser casado com D. Constança (da qual Inês era aia) não impediu este amor de começar. D. Inês foi exilada e, mesmo assim, a história con- tinuou. Depois de D. Constança morrer, D. Pedro foi buscar D. Inês ao exílio e levou-a para Coimbra. O casal teve quatro filhos, mas um morreu. Os filhos eram D. Pedro, D. Beatriz e D. Dinis. .Os irmãos de D. Inês de Castro estiveram na corte de Castela, onde reinava Pedro I, o Cruel (primo de D. Pedro), mas depois vieram para Portugal. Na altura preparava-se uma revolução contra D. Pedro I de Castela e especula-se que os irmãos de Inês tentavam convencer D. Pedro a juntar-se à revolução. Se ganhasse, ficaria com a corte de Castela, mas o Conselho do rei Afonso IV (pai de D. Pedro) temia que Castela ganhasse e que Portugal perdesse a coroa. Decidiu-se assim que o melhor era matar D. Inês. Ela foi então degolada (embora na versão dos poetas tenha sido "apunhalada", pois é mais dramático e romântico), deixando D. Pedro furioso e sedento de vingança. .Até aqui esta história é parecida com outras de amor, traição e morte, mas o principal facto que a torna extraordinária é toda a actuação de D. Pedro depois da tragédia da amada desencadeou uma guerra civil contra o seu pai; perseguiu e matou os assassinos de D. Inês; construiu um túmulo imponente, desenterrou-a seis anos depois e levou-a para Alcobaça (para a enterrar nesse mesmo túmulo) e ainda a coroou depois de morta, garantindo que os dois tinham casado em segredo. .Foi assim que D. Inês foi "coroada" rainha e jaz há muitos séculos ao pé do amado. Na verdade, D. Pedro mandou construir também um túmulo para si (onde está contada a história do amor deles) ao pé do túmulo de Inês. .A dr.ª Maria Leonor Machado de Sousa, da Universidade Nova de Lisboa, disse ao DN que "Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda são histórias de grandes paixões mas são histórias lendárias. Esta é verdadeira, está documentada pela história." E isso é que a torna tão especial..Hoje em dia, pela quantidade de turistas que entra em Alcobaça para ver os túmulos e saber mais sobre esta rainha, percebe-se que a história é muito conhecida e desperta curiosidade.. Mas já no século XIX, e mesmo na segunda metade do século XVIII, estrangeiros que visitavam Portugal passavam por Alcobaça para saberem o que realmente tinha acontecido aos dois apaixonados..Como gracejou Maria Leonor Machado de Sousa, "não lembra a ninguém comemorar 650 anos de morte." Apesar de ser uma data um pouco estranha para comemorar, faz sentido pois o assunto continua a interessar.