A história do Alberto

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Daqui por oito meses, no dia 6 de novembro, voltamos a falar. Nesse dia, vai ser eleito o Alberto para o Congresso dos EUA, pelo 27.º distrito eleitoral da Florida e vai fazer-se história. Claro que não conhece o Alberto, e também não se pode dizer que eu o conheça há muito tempo, 48, 50 e tal horas no máximo não é muito tempo, e nem é bem conhecer, é vasculhar a internet de cima a baixo para saber tudo sobre ele, como chegou onde chegou, de onde veio, para onde vai. Bom, para onde vai eu já disse, vai para Washington, para o Congresso. E isto é tão certo como dizer que o Diogo Piçarra ia desistir do festival logo quando se desconfiou do plágio.

A prova de que já não me dão tempo para nada é que não tinha dado por Alberto M. Carvalho, o homem que manda no sistema educativo do condado de Miami há dez anos, e que até foi condecorado por Cavaco Silva em 2012 quando eu trabalhava por lá.

O guião de Alberto, a biografia, digo, é perfeita. Nasce em 1965, em Lisboa, onde viveu, no Bairro Alto, no seio de uma família muito pobre, seis irmãos, a mãe costureira e o pai tipógrafo. Quando acaba o liceu, junta mil euros, em contos, na altura ainda era em contos, para conseguir ir para os EUA onde chega, em 1982, com 17 anos e sem documentos - um dreamer. Trabalha a servir às mesas, nas obras, tira o curso, Biologia, e começa a dar aulas no liceu e a caminhar por ali acima no sistema educativo. Sucesso atrás de sucesso, limpa os prémios todos que há para ganhar, é popular e amado por todos.

Poupa milhões ao sistema sem despedir professores, introduz remunerações variáveis, consegue resultados de acesso ao ensino superior acima da média, mesmo nos grupos étnicos e sociais tradicionalmente mais fracos. Ganha a fama de fazer mais com menos, de inovar nas escolas, defendendo um modelo de grande diferenciação e direito de escolha. O homem-milagre, chamam-lhe.

Alberto Carvalho é um político nato. Ultimamente tem feito frente a Trump e chegou a dizer que só por cima do seu cadáver irão buscar imigrantes não documentados a uma escola gerida por si. Mas desde há muito que tem a narrativa certa, a imagem certa, a vontade certa. Bem parecido (tipo Anthony Scaramoucci, Andrew Cuomo), bem vestido, os gestos seguros, a palavra poética, a linguagem corporal de quem vai mandar mais. Quando dava aulas, sempre impecavelmente vestido, era conhecido como o Mr. Armani. O que responde a isto? "Nenhum fato ou sapato italiano à medida muda o coração ou a alma." Cresceu na pobreza no Bairro Alto, em Lisboa. Como comenta isto? "Lembro-me de ser pobre, mas de me sentir absolutamente rico. Sentia-me rico porque cada vez que saía do meu pequeno apartamento era recebido por uma beleza absoluta. A arquitetura, as pinturas em museus a que podia ir de graça, as fontes, a poesia, a música que soava nos bairros antigos de Lisboa inspiravam-me todos os dias. Era pobre? Não me sentia pobre porque tudo à minha volta me fazia sentir rico."

Como qualquer político que vai longe nos EUA, já sobreviveu a um escândalo passional extraconjugal. A mulher, Maria Carvalho, de origem italiana, bonita, sempre bem nas fotografias, sempre à vontade nos eventos filantrópicos, ambos desportistas, ativos, os Carvalos sempre confiantes e mais americanos do que os americanos. Aliás é o próprio Alberto que diz com muita naturalidade Carvalo que isto de lhes, e já agora de ãos, são nomes postos por pais que não querem mesmo que os filhos cheguem um dia à Casa Branca, já não lhes basta serem portugueses.

Bill de Blasio, mayor de Nova Iorque, tinha já tudo combinado com Alberto Carvalho para o nomear como responsável pelas escolas públicas de Nova Iorque, o maior sistema educativo dentro dos Estados Unidos (um orçamento de 20 mil milhões de euros, um milhão e cem mil alunos. Apesar de a comparação não ser totalmente correta, o orçamento total do Ministério da Educação para o ensino não superior é de seis mil milhões, para o mesmo número de alunos, mas sem o valor das pensões).

Alberto tinha já aceitado mudar-se para Nova Iorque, dizem, mas voltou atrás. O que disse ele? "Estou a violar um contrato entre adultos para honrar um contrato e um pacto que tenho com as crianças de Miami." E não se pode dizer que voltou atrás por causa de dinheiros, porque já lhe tinham garantido salário idêntico em Nova Iorque. Aliás, Blasio teve de enfrentar muitas resistências para poder garantir os cerca de 290 000 anuais de salário (não, não tem zeros a mais).

A reviravolta deu-se numa reunião do board of education que foi transmitida em direto na TV, com o Twitter a acompanhar com a hashtag #thecarvalhoshow. Durante mais de duas horas, dezenas de pessoas convenceram-no a ficar, cantaram "please don"t go", leram poesia, choraram, imploraram. No fim, mudou de opinião e decidiu ficar, deixando Blasio no altar (foi essa a capa do New York Post) e o assessor de imprensa deste furioso a tuitar, sobre Carvalho "quem voltará a contratar esta pessoa? Quem votará nele?". Na reunião magna em que convenceram Alberto a ficar falou um negro, 50 e muitos anos, só se veem as costas, um polo da Adidas, a voz forte, a dizer que o que quer que esteja errado no sistema que esteja a fazer que Carvalho queira ir para Nova Iorque tem de ser corrigido porque foi Carvalho que trouxe a dignidade de volta ao distrito e tem de ficar. As costas são de Luther "Luke" Campbell, fundador e rapper dos 2 Live Crew, a famosa banda de hip hop dos velhos tempos, famosa por temas como Me So Horny, ou We Want Some Pussy. Por causa do disco As Nasty as They Wanna Be e das letras apimentadas, Luther esteve preso por obscenidade, vindo a ganhar num tribunal superior uma vitória importante para a liberdade de expressão. Noutra luta, em 1994, o Supreme Court reconheceu que não infringe os direitos de autor a paródia que tinham feito a Pretty Woman de Roy Orbison, mesmo que usem comercialmente a versão parodiada (se ao menos Piçarra se tivesse lembrado disto, dizia que aquilo era uma paródia à música da IURD).

A história do Alberto é a história do sonho americano, toda a gente o diz. Uma história do Carvalho, diriam os 2 Live Crew.

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