A história da Europa

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Contava-me há dias uma colega italiana, numa conversa entre copos, a forma como o seu bisavô havia sido fuzilado por Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial, por ser um partisano anti-fascista que simplesmente teve o azar de ser capturado pelo "outro lado".

"Mussolini assassinou o meu bisavô". Estas palavras, proferidas com tristeza genuína pela minha colega italiana, ficaram-me gravadas na cabeça. Silenciosa e respeitosamente, ouvi a história até ao fim. E com o álcool já a toldar-me ligeiramente os pensamentos, não consegui deixar de pensar por momentos na tremenda tragédia que tem devastado o nosso continente e nas tragédias que estão por vir.

A Europa já passou por demasiada guerra e sofrimento, a grande maioria dos conflitos perfeitamente evitáveis e que resultaram da pura má liderança que os povos ocasionalmente colocam à frente dos seus destinos. A má liderança pode assumir a forma de um rei, imperador, presidente, generalíssimo, duce, camarada, führer, kaiser, czar, ou outro qualquer título pomposo que entretanto se lembrem de inventar. Os que sofrem, esses, infelizmente são sempre os mesmos: os mais fracos e desprotegidos que, precisamente por o serem, acabam quase sempre por ser as primeiras vítimas dos caprichos de loucos varridos com o poder absoluto na mão.

Escrevo estas linhas no rescaldo das eleições gregas, cujo resultado não me surpreendeu pelo simples facto de já o esperar há muito. Podem, no entanto, marcar o dia 25 de janeiro de 2015 como tendo sido, possivelmente, o princípio do fim da era do demo-liberalismo na Europa. Vejamos do que se trata: o partido político que venceu as eleições, o Syriza, é um partido da esquerda radical que aglomera em si toda uma coletânia de correntes marxistas. Trotskistas, guevaristas, maoístas, anarco-comunistas e até alguns estalinistas bem disfarçados, no Syriza entra um pouco de tudo. A nível económico, as suas reinvindicações são legítimas, mas a nível sócio-cultural, o seu programa é 'gramscianismo' puro.

Ora, é precisamente aqui que reside o problema. O Syriza, e ao contrário do que reza a sua propaganda, não é um partido anti-sistema. Como qualquer outro partido marxista, é internacionalista e por isso mesmo defende o multiculturalismo selvagem que pretende, através da destruição das identidades nacionais dos povos da Europa, reduzir as nossas sociedades a um atomismo social que só poderá desembocar no fim das pátrias, caso seja permitido que este projeto chegue a bom porto.

O alto capital e o Syriza (à semelhança das restantes esquerdas...), neste ponto, estão de mãos dadas, pois ambos almejam fanaticamente a destruição das pátrias e a redução dos povos da Europa a servos subservientes, não se sabe muito bem do quê. O alto capital, um velho e sempre fiel amigo da causa bolchevique, poderá não gostar das políticas económicas do Syriza, mas decerto que irá adorar o seu internacionalismo militante. Oh se vai!...

A tragédia europeia adensa-se e o desfecho trágico já é praticamente inevitável. Toda esta loucura vai acabar em guerra civil generalizada dentro de algumas décadas, pois as forças nacionalistas na Europa, apesar de estarem temporariamente enfraquecidas devido à sua derrota na Segunda Guerra Mundial, não estão mortas. E as políticas da esquerda radical, em conluio com o alto capital, não irão tardar a atiçar contra si o ódio de muito bons europeus que alegremente irão reforçar as fileiras do nacionalismo revolucionário e militante à moda da Frente Nacional, entre outros.

Muito poucos conseguem perceber hoje o que realmente se está a passar na Europa, pois o verdadeiro "jogo" passa-se discretamente por detrás de cortinas muito opacas, as mesmas cortinas que discretamente esconderam os banqueiros de Hitler e Lenine sediados em Wall Street. Mas claro, disto já não falam quase nenhuns livros de história, não convém... A história da Europa, essa grande paixão, sempre se escreveu em lágrimas de sangue e nada no horizonte nos diz que tão cedo deixará de assim o ser.

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