Lembram-se do épico A Conquista do Oeste (1962), com o seu sistema de imagens em "Cinerama", concebido para três projetores e rapidamente caído em desuso? E de outros momentos exemplares na evolução temática e crítica do western, como Major Dundee (1965), de Sam Peckinpah, O Pequeno Grande Homem (1970), de Arthur Penn, ou O Juiz Roy Bean (1972), de John Huston? E será que se recordam da série de televisão Missão Impossível que, nas décadas de 60/70, criou o universo de aventuras que viria a ser relançado por Tom Cruise? E que dizer de Chinatown (1974), a prodigiosa incursão de Roman Polanski nos terrenos do filme noir? Ou ainda da comédia burlesca Nickleodeon (1976), nostálgica evocação dos tempos heroicos dos pioneiros do cinematógrafo, com assinatura de Peter Bogdanovich?.Que há de comum a estes títulos? Pois bem, fazem parte das muitas dezenas de filmes a que Hal Needham deixou o seu nome ligado como protagonista ou supervisor do trabalho "invisível" dos duplos, substituindo as estrelas nas cenas fisicamente mais arriscadas. Falecido no passado dia 25, aos 82 anos de idade, Needham fica como uma das personalidades lendárias dessas proezas essenciais à encenação de muitas cenas de ação física; em 2012, na cerimónia dos chamados Governor Awards, a Academia de Hollywood atribuiu-lhe um Óscar honorário..Por vezes, Needham assumiu também as tarefas de realização, em registo de comédia e quase sempre tendo como ator principal o seu amigo Burt Reynolds. Numa das suas colaborações, Hooper (1978), era mesmo o mundo dos duplos que surgia retratado num misto de paródia e realismo; de qualquer modo, os seus maiores êxitos foram Smokey and the Bandit/Os Bons e os Maus (1977) e The Cannonball Run/A Corrida Mais Louca do Mundo (1981), que deram origem a sequelas lançadas, respetivamente, em 1979 e 1984..Escusado será dizer que tais títulos, mesmo com toda a sua alegria autocrítica, não conferem a Needham um lugar de destaque na história dos autores de Hollywood. Em todo o caso, o que importa celebrar no seu trabalho é a energia primitiva do corpo no cinema. E tanto mais quanto, hoje em dia, um dos "vícios" do digital consiste em desvalorizar a performance física do ator (ou do duplo), recorrendo a imagens virtuais que, independentemente da sua beleza ou eficácia, se alheiam dos valores de representação inerentes à dimensão humana..Não por acaso, algumas das suas performances fazem lembrar as proezas físicas dos cómicos do tempo do mudo. De facto, o cinema nasceu com esse espírito de desafio aos limites do corpo, de alguma maneira superando os limites da sua materialidade. Quando lhe pediram para enumerar as virtudes indispensáveis para cumprir uma carreira de duplo, Needham resumiu tudo isso com saudável humor: "Alguma ambição, um pouco de coragem, alguns bons amigos e muita sorte... E também uma cabeça dura."