O mundo ocidental instalou-se na guerra, como se voltasse, com alívio, à essencial natureza das coisas. Os meus colegas indianos, quando lá passei, tinham-me alertado: a força dos países não se mede na sua riqueza, mede-se no seu poder militar, nas suas armas. Voltámos, na nossa Europa, a viver no mundo hobbesiano da guerra de todos contra todos, mundo donde os nossos irmãos humanos asiáticos e africanos nunca verdadeiramente chegaram a sair, mundo que responde talvez à nossa mais funda natureza..Um louco que se toma por Pedro o Grande é sempre mais do que um louco que se toma por Pedro o Grande, pois traz consigo mitos e fantasmas que sustentam todas essas mentiras, pintadas em grandes cartões como os que Potemkin oferecia a Catarina II, nos quais se finge a grandeza de uma pátria; um louco é sempre mais que um louco, é aquele que quis grandeza/qual a sorte não dá (Pessoa) e acaba por oferecer ao seu país, como legado, Alcácer Quibir, Waterloo ou o bunker de Berlim. Putin é esse louco, mas nele o mais profundo de nós ganha existência e alacridade: Na realidade os nossos concidadãos do mundo não caíram tão baixo como nós pensamos, pela simples razão que nunca também se elevaram a um nível tão grande como nós tínhamos imaginado (Freud, Considerações de atualidade sobre a guerra e a morte, 1915). Pois não vemos dia a dia nas atrocidades da Ucrânia o mesmo filme dos crimes e violências praticados na Segunda Guerra Mundial, nas perseguições e ódios étnicos na Rússia e Ucrânia a reencenação do mecanismo que levou aos massacres na ex-Jugoslávia? Nada novo sobre a terra....Mas Freud, naquele mesmo ensaio, faz mais um aviso que nos parece essencial: Mas nós verificámos nos nossos concidadãos do mundo um outro sintoma que não nos surpreendeu e assustou menos do que a baixa do seu nível moral. Refiro-me à sua falta de inteligência, à sua estúpida obstinação, à sua inacessibilidade aos argumentos mais convincentes, à credulidade infantil com que aceitam as afirmações mais contestáveis (...) Os argumentos lógicos nada podem contra os interesses afetivos e por isso a luta por razões é estéril no mundo dos interesses..O mais perigoso efeito do clima de guerra que vivemos reside nessa "suspensão da inteligência e da racionalidade" que se está mais uma vez a impor ao nosso pensamento. Quando a ideia de que a Rússia existirá no futuro e de que teremos necessariamente que pensar como viver com ela após a guerra, provoca o horror e o anátema gerais e faz de quem a profere, seja ele um velho político americano na reforma ou o Presidente da República Francesa, um criminoso e um traidor, algo de muito perigoso se está a passar com as nossas faculdades racionais e capacidade de discussão..Por isso todos os líderes guerreiros são loucos que se tomam por personagens ilustres da História: Napoleão tomava-se por Alexandre da Macedónia, Estaline julgava-se Alexandre Nevsky, Hitler pensava-se como Frederico da Prússia... que nos pode espantar que o louco do Kremlin se tome hoje por Pedro o Grande?.Diplomata e escritor