Dirigidos pelos seus chefes digitais, os bolsonaristas de internet têm opiniões simples e fortes sobre qualquer tema. À primeira complexidade, entretanto, caem na mais completa exaustão mental..Exemplo recente: depois de defenderem um dos lados com aquela certeza só ao alcance dos pobres de espírito no conflito em Gaza, cansaram-se de tanto mapa, de tanto número, de tanto contexto, de tanta história, de tanto anexo, de tanta camada, de tanta chatice..Na verdade, os bolsonaristas gostam mesmo é de envolver-se, com paixão infantil, num conflito que tenha bons e maus muito bem definidos na cabeça deles..Encontraram um: "A guerra do chocolate"..O "mau" da "guerra do chocolate" é Felipe Neto, influenciador digital com 45 milhões de seguidores. Por volta de 2015, Neto endeusava a Lava Jato e demonizava Lula e todos os demais "políticos tradicionais" até, em 2018, ver um deputado medíocre chegar ao Planalto de mãos dadas com o juiz daquela operação e perceber que enfiara um barrete..Após os quatro anos de retrocesso económico, social, sanitário, intelectual e moral que se seguiram, pediu desculpas pelas imaturidades do passado e passou a mirar em Bolsonaro e no gado bolsonarista..Como Neto se tornou, por estes dias, o rosto de uma campanha do chocolate Bis, os líderes de opinião bolsonaristas no mundo digital decidiram promover um boicote à marca..A hashtag #bisnuncamais passou pelas redes sociais dos deputados Nikolas Ferreira, conhecido por discursar de peruca para atacar a população trans, André Fernandes, condenado por acusar uma jornalista de escrever notícias incómodas para Bolsonaro em troca de sexo, ou Carla Zambelli, famosa por andar a correr pelas ruas de São Paulo de arma em punho atrás de um eleitor de Lula..Bovinamente fiéis aos seus líderes digitais, os bolsonaristas filmaram-se então nas redes sociais, o solo fértil da imbecilidade, como ecoou o Umberto, a deitar centenas, milhares de embalagens de Bis no lixo com aquela tal certeza só ao alcance dos pobres de espírito. Estavam tão certos, tão certos que talvez nem se tenham apercebido de que comprar mais Bis do que nunca para deitar no lixo a seguir talvez não fizesse sentido..Foi nessa altura que os "maus" contra-atacaram sob a forma de um vídeo debochado de Randolfe Rodrigues, senador do PT. "Vindo daqueles que consumiam cloroquina [remédio inútil contra a covid], o boicote a um chocolate tão gostoso é elogio! Assim como Felipe Neto, em 2022 o Brasil pediu Bis de tudo o que nosso país já teve de bom: vacina no braço, economia aquecida e comida no prato. Agora falta só o Bolsa Bis para o povo ficar feliz de novo!".A contrarresposta coube a Carlos Jordy, deputado bolsonarista cuja principal credencial é ter tentado associar Felipe Neto a um massacre escolar com 10 mortos, em 2019: sugeriu comprar KitKat, concorrente do Bis..Mas quando tudo no cérebro singelo dos bolsonaristas de internet voltava a fazer sentido - "vamos parar de comprar Bis para deitar fora a seguir e comprar o concorrente" -, alguém se lembrou de reproduzir nas redes sociais uma campanha recente da KitKat, marca assumidamente progressista, a favor dos LGBTQIA+, com direito a beijo gay no meio do anúncio e tudo..Tensos, cansados, confusos, os bolsonaristas de internet jamais imaginariam que a "guerra do chocolate" se tornaria tão difícil de entender como a de Gaza. Mas estão prontos para a próxima..Jornalista, correspondente em São Paulo