É pouco provável que por estes dias alguém na Holanda se recorde que a túlipa, um dos símbolos nacionais, foi trazida da Turquia. Passados quase 500 anos desse empréstimo (involuntário) da flor pelos otomanos, os dois países enfrentam uma crise aguda nas relações, com o ministro dos Negócios Estrangeiros turco a ser proibido de aterrar na Holanda e em resposta o presidente turco a chamar nazis aos holandeses. Decisões extremas e palavras extremas, cujas consequências últimas estão ainda por perceber..São tempos sensíveis na Holanda, que amanhã vai a votos e com o tema dos imigrantes muçulmanos a dominar a agenda. São tempos também sensíveis na Turquia, que em abril organiza um referendo que propõe o reforço dos poderes presidenciais e a abolição do cargo de primeiro-ministro. Mas é mesmo por serem tempos sensíveis, sobretudo nas relações entre a União Europeia como um todo e a Turquia, que as ações e as palavras devem ser bem pesadas. É fácil adivinhar que a médio prazo ninguém ganhará com esta crise. Nem os holandeses nem os turcos, de certeza..Já no imediato há hipóteses de haver alguns ganhos, imprevisíveis para quem vencer no lado holandês (o primeiro-ministro Mark Rutte ou o político islamofóbico Geert Wilders?) mas óbvios no lado turco, no qual Recep Erdogan é mestre em associar islão e nacionalismo, obrigando até o líder do principal partido da oposição, que defende o voto não no referendo constitucional, a vir a terreiro pedir o corte de relações com a Holanda em nome da honra da pátria..Nisto de jogos políticos há sempre riscos: para a União Europeia de ver ainda mais frágeis os laços com um Erdogan autoritário que chegou a ser tratado como um campeão da democracia e que mantém guardada a cartada dos refugiados retidos em solo turco à espreita do sonho europeu; para a Turquia de ser arrastada para um virar de costas à União Europeia e à NATO que acabará prejudicial para o país, até a nível económico, pois a aliança com a Rússia não é alternativa..Cuidado, pois, com esta guerra das túlipas. Há demasiada história por trás das relações entre europeus e turcos. E nem sempre de flores.