Com a iniciativa da Expo'98, a zona oriental de Lisboa ficou altamente favorecida: para além de um novo espaço lúdico, também surgiu um novo bairro, que gradualmente tem vindo a atrair populações. .A verdade, porém, é que são hoje muitas as debilidades que aí se sentem, porque a administração do espaço que incorpora o hoje Parque das Nações é altamente confuso, nos diversos poderes partilhados. .Até certo ponto, foi bom que a vida - neste caso, urbana e lúdica - se antecipasse à instalação das estruturas administrativas de governo. Só que o tempo passa e as questões de governo local começam a ser evidentes. .Tudo isto com a agravante de o espaço compreendido no Parque das Nações pertencer a dois municípios - Lisboa e Loures - e a três freguesias - Santa Maria dos Olivais, Sacavém e Moscavide..Como é que o poder político tem reagido? O sentido da resposta depende da instância da decisão. .Ao nível da Assembleia da República, houve desde cedo a preocupação com a criação da Freguesia do Oriente, exactamente neste espaço, inserindo-a por completo no município de Lisboa. .Trata-se de uma louvável iniciativa, porquanto revela que o poder legislativo não é insensível às mudanças e que, pelo contrário, as quer acompanhar..Por outro lado, essa foi uma orientação impulsionada pela Associação dos Moradores e Comerciantes do Parque das Nações, que em boa hora tomou nas suas mãos o destino do seu novo bairro..Infelizmente, já não se pode dizer o mesmo dos vários poderes locais. É que as diversas freguesias consultadas - e presume-se que o mesmo vá acontecer com a Assembleia Municipal de Lisboa - têm sistematicamente produzido pareceres desfavoráveis. .As razões são perceptíveis porque nenhuma unidade territorial alguma vez aceitará perder o «tesouro» chamado Parque das Nações. Mas essas não são boas razões, uma vez que se afirma a prevalência de um paroquial interesse público, em detrimento das populações que seriam mais bem servidas pela criação de uma nova freguesia..A Assembleia da República, mesmo com todos os pareceres desfavoráveis, não está inibida da criação da freguesia, com isso dando um sinal evidente de que está atenta à mudança da realidade social e urbana da capital. .Pena é que os poderes locais, no âmbito das autarquias envolvidas, não vejam a importância do problema, aduzindo os mais sibilinos argumentos para justificar a sua posição desfavorável: desde a necessidade da maturidade da decisão à preocupação de enquadrar a decisão no contexto da reforma de toda a cidade de Lisboa, passando pela ideia de que não é a criação de uma freguesia que resolve os problemas daquela zona. Pergunta-se: mas com esta argumentação, será alguma vez possível, em Portugal, criar uma nova freguesia, que permita responder aos problemas de dada localidade, de acordo com um instrumento que a democracia estabelece? .Claro que não. Não é este o poder local que está ao serviço das populações e que todos queremos reforçar.