A fome dá saúde

Durante as festas natalícias três dos meus filhos resolveram abrigar e alimentar uma família de vírus. Sei que eram membros do clã das gripes, só não tenho a certeza a que letra do alfabeto pertenciam. Como sintomas, o costume: febres altas, dores musculares e articulares, tosse, mal-estar, dores de cabeça e muita falta de apetite. Aliás, a falta à mesa da Consoada destes autênticos sugadores de comida, que normalmente fazem um peru de Natal parecer um pinto de aviário, fez que as sobras dessem para o resto de 2009.<br /><br />
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Esta perda de vontade de comer, especialmente notória no tempo das doçarias, fez-me pensar sobre as relações entre a doença e o apetite. Investiguei e aqui vão algumas das descobertas.
Já se deu ao trabalho de pensar por que razão não lhe apetece comer nada, nem mesmo a canja da avozinha ou as farófias da sogra, quando está doente? É de esperar que a resposta seja imediata – claro que sei: porque a febre, as dores e a indisposição não deixam nada passar da boca. Às vezes até me dá enjoos só de cheirar o ensopado de cabrito com broa frita que servem para o almoço –, mas a minha pergunta procura as razões mais profundas, ou seja, a causa biológica para o que, aparentemente, é um contra-senso sem grande justificação evolutiva. Senão, vejamos: não seria lógico que numa altura em que o nosso organismo mais precisa de energia para combater as ameaças externas reforce todos os mecanismos para a obter, como os soldados que buscam mais munições quando o forte é atacado?
O sistema imunitário dos animais é imediatamente activado quando uma força estranha o agride – são produzidas novas proteínas e enzimas antimicrobianas, as células de defesa multiplicam-se e mobilizam-se todas as armas para os locais atacados. Tudo isto corresponde ao gasto de milhões e milhões de euros, ou melhor, de calorias. Portanto, o natural seria a natureza ter seleccionado os seres vivos cujo apetite aumenta quando tencionam combater uma invasão bacteriana e não o contrário.
Como não é isso que acontece e porque raramente a evolução escolhe caminhos errados, vamos pensar nas razões por detrás de tamanha incongruência. Aliás, até estão publicados trabalhos em que se demonstrou que ratinhos doentes forçados a comer tinham maior probabilidade de morrer do que aqueles que comiam o pouco que a doença permitia.
A primeira reacção a uma questão como esta é a de apontar o dedo ao agente causador da doença (vírus, bactéria…) ou a substâncias produzidas por ele. No entanto, recentes descobertas indicam que a perda de apetite é resultado da acção do sistema imunitário e não da entidade agressora. Mas porquê?
Há várias teorias que tentam explicar o que se passa, mas até agora nenhuma é completamente satisfatória, o que faz pensar que a resposta é multifactorial e os mecanismos muito complexos. Esta é, provavelmente, a razão por que grande parte dos estudos foram efectuados em invertebrados, nomeadamente em insectos, que apresentam um sistema imunitário mais simples.
Uma das primeiras hipóteses é que esta seria uma maneira de evitar infecção adicional, muitas vezes de origem alimentar, quando o animal consome um cadáver ou um outro item contaminado. Na mesma linha vem a sugestão de que a digestão poderia facilitar a entrada de microrganismos a partir do intestino, já que as defesas estariam focadas para outros ataques.
Outra teoria diz que a fome poderia reduzir a disponibilidade de macro e micronutrientes (por exemplo, o ferro que é essencial ao metabolismo das bactérias), reduzindo a capacidade de multiplicação dos agentes infecciosos. Esta razão parece ser fraca, já que se demonstra que um organismo, mesmo sem comer, consegue mobilizar, a partir das suas reservas, o suficiente para si e para os microrganismos. Até porque é assim que alimenta o seu sistema imunitário hiperactivado.
Finalmente vêm umas razões mais complexas, mas que parecem ter sido comprovadas em espécies como o grilo ou lagartas diversas. Em termos gerais, esta teoria diz que os mecanismos necessários para a digestão e absorção de nutrientes colide directamente com os processos necessários à activação das defesas imunitárias. Poderia haver duas formas de isto acontecer - a redução no aporte de energia poderia, só por si, activar certos mecanismos imunitários, o que se verifica em animais saudáveis que passam fome. Isto poderia ser uma forma de a natureza preparar os animais para potenciais agressões infecciosas que surgem com maior probabilidade quando o alimento é escasso (come-se qualquer coisa) e o organismo está debilitado.
A outra forma, e que foi comprovada nalguns insectos, é que a absorção e metabolismo dos lípidos (gorduras) de origem alimentar choca com os mecanismos imunitários que também usam lípidos do organismo. O que se demonstrou é que os animais aos quais se forçava a ingestão de um alimento rico em gordura eram mais susceptíveis a doenças e morriam mais do que aqueles que passavam fome ou comiam coisas pobres em gordura.
Levando em conta as necessárias diferenças, podemos mesmo assim extrapolar um pouco e concluir que a falta de apetite durante o decurso de uma doença infecciosa afinal não é tão desvantajoso como isso. A ideia da mãezinha ao lado da cama do catraio a arder de febre, a meter boca abaixo colheradas de canja cheia de gordura, afinal não é sinónimo de bons tratos. Provavelmente descanso, muitos líquidos e o tempo serão suficientes para curar a maior parte das doenças corriqueiras. A dar qualquer coisa que seja, tudo menos gordura… isto é, se nós funcionarmos como um grilo.

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