Quando trabalhei na Avenida da Liberdade, no palacete Lambertini, com o saudoso engenheiro José Álvaro Chaves Rosa, a tratar dos preços controlados, nos idos de 1976, tive o prazer supremo da presença da Feira do Livro à beira da porta. Não esqueço esse tempo em que me perdia entre velharias e livros que tinham passado despercebidos. A feira não é só uma montra, é um ponto de encontro de personalidades e sombras. Alguém nos recorda um episódio ou uma figura. Os temas são inesgotáveis e há sempre descobertas inesperadas, mesmo em velhas obras razoavelmente conhecidas. E lembrei-me de Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos?, uma obra de 1991, a dizer-nos que essa visitação é como se entrássemos numa sala, onde decorre um serão de celebridades e cada autor funciona como um anfitrião, educado e culto, disponível para nos apresentar aos seus convivas - Homero, Xenofonte, Ovídio, Plínio (o antigo, naturalmente), Ariosto, Galileu Galilei, Cyrano de Bergerac, Daniel Defoe, Voltaire, Diderot, Stendhal, Balzac, Dickens, Flaubert, Tolstoi, Mark Twain... E se falamos de salão de celebridades, percebemos a etimologia de "clássico" - o que merece a atenção das classes escolares..Nesse encontro mágico, percebemos, atordoados, que tudo se passa como se Dante e Virgílio nos conduzissem na Comédia. E, não refeitos das primeiras impressões, a apresentação continua estonteante... Henry James, R.L. Stevenson, Conrad, Pasternak, Montale, Hemingway, Ponge, Borges, mostram-se-nos em facetas inesperadas e perturbadoras, pela imaginação, pelo espírito e pelo talento. Mas Calvino, ao apresentar-nos essas fulgurantes sombras vivas, põe-nos alerta contra a tentação de os vermos superficialmente. O convívio e a leitura dos clássicos permitem-nos apreender melhor o conhecimento e a sabedoria. Os clássicos exercem sempre especial influência. E se muitas vezes se diz que "relemos" os clássicos, a expressão é pretensiosa e falsa. Afinal, "lemos" sempre como se fosse a primeira vez. Quantas vezes não é mesmo a primeira vez?... Ilusão? Paradoxo? "De um clássico toda a releitura é uma leitura de descoberta igual à primeira." "De um clássico toda a primeira leitura é na realidade uma releitura." Porquê? Porque um clássico "nunca acabou de dizer o que tem a dizer"..Como esquecer a marca das "odisseias" e das "peregrinações" como paradigmas de cultura? Como não testar em Dante qual o sentido de dantesco, ou em Maquiavel o sentido de maquiavélico e em Kafka o de kafkiano? Mallarmé procurava a ideia do livro total e, no fundo, o clássico "é o que não pode ser-nos indiferente e que nos serve para nos definirmos a nós mesmos em relação e, se calhar, até em contraste com ele". E não esquecemos a virtuosa obsessão de Walter Benjamin: "Renovar o mundo velho - é este o impulso mais enraizado na vontade do colecionador de adquirir peças novas, e por isso o colecionador de livros antigos está mais perto da fonte do colecionar do que os que se interessam por reimpressões bibliófilas". A atualidade torna-se ruído de fundo, mas o "clássico" não pode viver sem esse ruído, pois é ele que o mantém vivo e legível, além das contingências. Ser clássico é ter força suficiente para vencer as barreiras do tempo e para se tornar ruído de fundo da atualidade. Porquê ler os clássicos, porquê amar os livros e a leitura? "Ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos", diria de modo desconcertante Calvino, citando Cioran: "Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates pôs-se a aprender uma ária na flauta. Para que te servirá?, perguntaram-lhe. Para saber esta ária antes de morrer." Eis porque o amor do saber, da leitura e dos livros é inerente à humanidade..Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian