A fábula de Farage e Cox

Se Farage acha que Merkel deve ser responsabilizada pelo ataque em Berlim, não lhe ocorre sentir-se responsável, exatamente por este tipo de discurso, pelo homicídio de Jo Cox?
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Menos de 24 horas após a morte de 12 pessoas no mercado de Natal em Berlim, Nigel Farage, o ex líder do Partido da Independência do Reino Unido (de extrema direita e principal entusiasta do Brexit), culpou a chanceler, no Twitter, pelo ocorrido. "O que aconteceu em Berlim é terrível mas não surpreende. Acontecimentos como este serão o legado de Merkel". Entre os milhares de respostas que recebeu, várias de berlinenses chocados com o que reputam de aproveitamento da tragédia, está a de Bernard Cox, o viúvo de Jo Cox. Jo Cox, recorde-se (tanto sucedeu este ano que muitos terão esquecido) foi a política trabalhista favorável ao acolhimento de refugiados assassinada à facada e a tiro em 16 de junho, a quatro dias do seu 42.º aniversário, durante a campanha do referendo, por um terrorista britânico "independentista" de extrema direita.

"Culpar políticos pelas ações de extremistas? Caminho perigoso [slippery slope], Nigel", respondeu Bernard. Farage retorquiu, na rádio: "Cox sabe mais de extremistas que eu, ele apoia organizações como Hope Not Hate [Esperança Não Ódio] que fingem ser amorosas e pacíficas mas na verdade usam meios violentos e nada democráticos. E peço desculpa, Sr Cox, mas é tempo de as pessoas começarem a assumir responsabilidade pelo que sucede." Questionado sobre se Cox não é precisamente uma vítima do extremismo, Farage disse: "Sim, é uma coisa horrível o que aconteceu à sua família, com o homicídio da mulher, mas ele continua ativo na arena política e tendo em conta o tipo de organizações que apoia não vou abster-me de responder."

Farage não foi confrontado com o sentido óbvio das palavras de Cox - se acha que Merkel deve ser responsabilizada pelo ataque, não lhe ocorre sentir-se responsável, exatamente por este tipo de discurso, pelo homicídio de Jo? E como ousa, após a morte dela, persistir em tal retórica? - nem lhe exigiram que explicasse por que qualifica a Hope Not Fear, que luta contra o extremismo e a xenofobia, como violenta e "não democrática". Ou como é que, seis meses e quatro dias após o ato de terrorismo contra a deputada, insinua que o marido apoia terroristas, apresentando-se como vítima do "ativismo político" de Bernard.

Fascinante paradoxo, não é? Farage está, ao mesmo tempo, a dizer que ele e Cox são iguais - no sentido em que o viúvo não lhe merece qualquer cuidado pela sua tragédia - e que Cox devia era estar caladinho e não fazer ondas, se não quer o que é bom para a tosse, ou seja, que não são iguais. Numa altura em que Portugal tanto debate "o direito a ofender" em nome da sacralização da "liberdade de expressão", este episódio podia ser muito útil para ilustrar a "vitimização reversa" subjacente ao refluxo contra a ideia de "politicamente correto" e o negacionismo total que tal implica: quem é ou não vítima passa a ser matéria de "opinião" e de "dar jeito", não de história ou factos. Uma fábula terrível mas perfeita, esta, de tanto do que (nos) está a acontecer - assim fosse entendida.

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