À entrada da Casa do Pessoal da antiga Fábrica da Maceira-Liz, Mário Lopes roda a chave na fechadura que parece emperrada. Cheira a novo, graças à tinta que pintou de claro as paredes do espaço e ao verniz que afagou o chão do auditório e das salas de convívio. "Foi tudo reformado para a comemoração dos 100 anos", conta o engenheiro informático que há 30 anos faz parte dos quadros da atual Secil. Mário Lopes é agora o presidente da direção da associação, nascida em 1934 como "organismo de cooperação social", com o objetivo de "assegurar a previdência e assistência", bem como a "instrução e progressos locais" dos associados, que eram afinal os trabalhadores da fábrica de Cimentos de Maceira-Liz..Quando no passado dia 3 de maio as portas se abriram para comemorar a abertura daquela que foi considerada, à época, "a fábrica mais moderna do mundo", o quadro de pessoal já não contabilizava os cerca de 1000 operários que chegou a registar, quedando-se agora em perto de uma centena..É outro o tempo em que a atual Secil continua a laborar, mas numa volta pelo museu - aberto ao público há 20 anos, com visitas por marcação - percebe-se a importância daqueles loucos anos 20 do século passado, em que viveram os fundadores: Henrique Sommer e José da Rocha e Mello. "Houve sempre uma grande preocupação em documentar tudo, nomeadamente em fotografias, coisa que não era comum, à época", conta Nuno Maia Silva, diretor de comunicação do grupo e grande entusiasta de todo o espólio que tem sido preservado, em conversa com o DN..São essas imagens que permitem fazer uma viagem no tempo, desde a criação da fábrica num terreno baldio, até aos dias de hoje, passando pela construção dos edifícios escolares, da clínica médica (onde os trabalhadores tinham acesso a todas as especialidades, mesmo as mais raras naquele tempo, tal como atesta a cadeira do dentista), ou da capela..Numa tese de doutoramento inédita, publicada em 2021, a investigadora Isabel Bolas traçou o impressionante percurso da fábrica - "Tecnologia e Estado Novo: os cimentos e a materialização do corporativismo português". Porque foi ali, afinal, que acabou por nascer a primeira Casa do Povo do antigo regime. "A qualidade do cimento produzido em Maceira-Liz através do forno rotativo, um cimento homogéneo, não deu apenas resposta à construção de grande parte da obra do Estado Novo. A fábrica constituiu-se como um espaço de experimentação de políticas sociais e económicas do regime corporativo, sendo simultaneamente indissociável do desígnio de recristianizar Portugal", refere Isabel Bolas..Tal aconteceu não só através da forma "como contribuiu para que a indústria do cimento se organizasse face ao condicionamento industrial, elemento central da política económica do novo regime, o qual acabaria por permitir criar a primeira Federação das Caixas de Previdência; como através da conceção do conjunto fabril e social, um espaço de experimentação social em que foram construídos e testados um conjunto de equipamentos, em forma de projeto-piloto, de soluções corporativas, que acabaram por ser implementadas no território português". A investigadora refere-se ao bairro operário e toda a envolvente..As ruas em volta da fábrica mostram uma arquitetura com assinatura de Raul Lino e Narciso Costa, sobretudo. Da centena de casas construídas pela administração para albergar os trabalhadores, "cerca de 30 ainda estão habitadas", revela Nuno Maia Silva. Uma parte importante desse edificado vai agora ser remodelado e colocado no mercado de arrendamento, no âmbito de um protocolo celebrado com o município de Leiria. No dia de celebração do centenário, ambas as partes firmaram um acordo que tem por base "um projeto-piloto de habitação especialmente direcionado a famílias jovens"..Segundo o protocolo, o município assumirá na íntegra a reabilitação das habitações, "pretendendo-se, com este núcleo habitacional, contribuir para reduzir a pressão imobiliária da zona urbana de Leiria e servir de alavanca para o projeto próprio da Secil - Companhia Geral de Cal e Cimentos S.A. no restante bairro, com o qual o Município está totalmente disponível para colaborar", refere Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de Leiria..Construída entre 1919 e 1923, no rescaldo da I Guerra Mundial e da profunda crise resultante da gripe pneumónica, a Fábrica da Maceira-Liz marcou uma evolução determinante no fabrico do cimento e na construção do país, sem nunca parar a laboração.."Durante 100 anos atravessámos revoluções, uma guerra mundial, um processo de nacionalização e uma reprivatização, a adesão à União Europeia e a criação da moeda única. Demos forma ao futuro, e vamos continuar a inovar por mais 100 anos, apostando na descarbonização e sustentabilidade e com o foco nas gerações vindouras", afirmou Otmar Hübscher, presidente executivo da Secil, no dia do centenário. "Pela sua localização e tipo de estrutura fabril, a Fábrica da Maceira-Liz vem desempenhar um papel relevante e pioneiro neste processo", acrescentou. Para esta unidade industrial, a Secil tem previsto "um projeto de redução das emissões de CO2 e melhoraria da eficiência energética"..A Secil traduz-se num grupo empresarial (fundado em Portugal) que assenta a sua atividade na produção e comercialização de cimento, betão, agregados, argamassas e cal hidráulica. Nas últimas décadas, o grupo expandiu-se para outros mercados. Atualmente opera em três fábricas de cimento em Portugal (Outão, Maceira e Pataias) e está presente em Angola, na Tunísia, no Líbano, em Cabo Verde, em Espanha, na Holanda e no Brasil. Uma história que começou a contar-se numa vila do concelho de Leiria, muito próxima da Marinha Grande. De resto, foi a partir da linha do Oeste, na Martingança, que acabou por ser construído um ramal do caminho-de-ferro, que fazia a ligação à fábrica. Por ali circulou, entre 1926 e 1987, a locomotiva número 1, importada da Alemanha..dnot@dn.pt