A expressão da mentira

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Na dúvida, acredito nos meus filhos. Não resisto. Tem qualquer coisa que ver com a expressão do olhar deles. A minha filha, por exemplo, consegue pôr as sobrancelhas em forma de ponto de exclamação de um modo deliciosamente convincente e até comovente. Tenho outro que baixa os olhos como se tivesse sido derrotado. Como se a minha dúvida na sua verdade o tivesse atingido no coração e deixado sem forças, em estado de desânimo. É irresistível (ele tem uns olhos escuros enormes de desenho animado). Um deles encolhe os ombros indignado como se não valesse o esforço em convencer-me. E não insiste, num estilo de arrogância ofendida. Mas são os olhos, o olhar que eles fazem que me impede de duvidar. Eles brilham ansiosos e quase me desmancho a rir. É certo que nestas alturas a minha cabeça, a parte racional do meu cérebro, aquela que pensa, hiberna. Ela recusa-se a compactuar com a minha fragilidade emocional e faz greve ao raciocínio. Assim, sobra todo o trabalho para a minha parte emocional, aquela que as mães adoram deixar à solta. E a partir daqui não há limites. A criançada faz o que quer de nós: dizem coisas incríveis, inventam desculpas para a asneirada sem coerência, fazem-nos duvidar da exatidão de leis da física sobre o espaço e o tempo, convencem-nos de que ouvimos mal, vimos mal, dissemos coisas que não dissemos e conseguem que acabemos a pedir desculpa por duvidarmos. Convencemo-nos de que acreditamos em tudo o que dizem porque sofremos se duvidamos. Aquele olhar dói a sério. E eles sabem. Descobrem muito cedo que a posição das sobrancelhas é quase tudo na vida, que o sucesso para terem os pais nas palminhas das mãos está em conseguir fazer um olhar tipo ET ou gato das botas do Shrek. E nós gostamos deste estado de coisas. Gostamos verdadeiramente de ser enganados. Ter razão, apanhar um filho numa mentira dá trabalho: temos de nos zangar, fazer o discurso da confiança, carácter, etc. e castigar. Se descobrimos temos mesmo de os castigar ou somos cúmplices. É uma ratoeira. E que castigo? Telemóvel, computador, cama mais cedo, televisão? Dá trabalho. Quebra a rotina familiar. Não, o melhor mesmo é acreditar. Acreditar como quem vota no Marcelo: sabemos tudo mas gostamos dele na mesma. Acreditar e ter esperança de que se sensibilizem com a nossa parvoíce, com a nossa tonta bondade. Até lá, resta-nos perguntar pouca coisa: quanto menos perguntarmos, menos vezes somos enganados. A não ser quando quero ver aquelas sobrancelhas em riste. Uma maravilha.

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