Todos os males do nosso mundo decorrem de uma União Europeia degradada, desgastada e pouco solidária, que toma decisões arbitrárias e sem conhecimento de causa sobre o que deviam ser competências nacionais. Uma instituição que aparentemente muito poucos queriam que existisse, que rouba poderes aos Estados e decide em favor dos seus membros mais fortes, indiferente às dificuldades dos restantes, que avança a duas velocidades e não se importa de deixar alguns para trás..Parece andar por aqui o sentimento generalizado em relação ao que já foi o sonho europeu mas que hoje é visto como um empecilho a grandes voos nacionais - estaríamos muito melhor se não fosse Bruxelas sempre a meter-se, se não tivéssemos de submeter-nos às regras que quem não conhece a nossa realidade inventa para nos submeter -, um pesadelo de que só importa fugir o mais rapidamente possível. Que importa que nos emprestem dinheiro se depois querem impedir-nos de gastá-lo descontroladamente? O que é que a Europa tem que ver com a forma como gerimos as nossas dívidas? E de que serve a livre circulação de pessoas se isso implica que estrangeiros podem ficar com os nossos empregos (quando somos nós a procurar trabalho lá fora é diferente, claro...)?.Da Alemanha à Grécia, passando por Portugal, andamos esquecidos de todos os bens que esta coligação de Estados nos trouxe. Fazemo-nos cegos em relação às incríveis vantagens que resultam dessa vontade de chegar a uma Europa unida, federada e forte - e que vão tanto além da livre circulação de pessoas e bens, da moeda única... -, preferindo olhar as dificuldades do caminho, as dores de parto e de crescimento. E tantas vezes injustamente apontar-lhe defeitos e fragilidades que de facto não resultam das atribuições europeias mas de incompetências nacionais..A verdade é que as maiores críticas que fazemos à União Europeia - da economia à segurança - resultam quase sempre de fragilidades nacionais, da falta de capacidade dos Estados membros e dos seus líderes para cumprirem maiores desígnios, para se entenderem, para chegarem a consensos..No entanto, é esta a triste realidade: a União Europeia, tal como está, não pode durar muito mais tempo. E é por isso que é fundamental, é urgente, discuti-la na sua essência. Temos uma base de trabalho. Só precisamos de desviar os olhos do nosso umbigo para ver as nuvens negras no horizonte e entender que é preciso afastá-las rapidamente. É uma questão de sobrevivência - da Europa, dos Estados que aqui se uniram, das novas gerações..Os habituais espíritos de contradição virão dizer que a discussão chega tarde, que é um gesto de desespero no fim de vida de uma coisa que nunca existiu. Não há como evitá-lo, sobretudo numa altura em que os ânimos se extremam como nunca antes vimos, em que o populismo prospera perigosamente na política. Mas é bom que a maioria entenda que esta é de facto a altura certa para debater o que se quer que seja a Europa daqui em diante. É este o momento em que se define o futuro e isentarmo-nos de contribuir, de querer saber, de procurar soluções para a União Europeia é decretá-la morta. Não podemos encolher os ombros e arrepender-nos mais tarde do que decidirem por nós. Então, será demasiado tarde.