Tanto para os brexiters moderados como para os remainers resignados ao brexit, a estratégia ideal parece fácil. Basta seguir o conselho de Philip Hammond, o chanceler do Tesouro do Reino Unido. Um acordo transitório resolve quase todos os problemas potenciais - um precipício económico mesmo antes da data oficial de março de 2019 para a saída da União Europeia; um eventual fracasso das negociações do Artigo 50.º devido a uma fatura de saída excessivamente elevada - e isso dará tempo para negociar e implementar um acordo comercial..Uma pergunta muitíssimo mais interessante será: qual a estratégia ideal para aqueles que querem que o Reino Unido continue a ser membro da UE e se recusam a aceitar os resultados do referendo como sendo a última palavra? Uma via será manter a esperança de que os brexiters não sigam o meu conselho, que forcem a realização de eleições, que ganhe um partido empenhado na realização de um segundo referendo e que a UE aceite a revogação do brexit por parte da Grã-Bretanha sem condições. Boa sorte para eles..Eu defenderia uma via diferente. O acordo transnacional evitará um precipício para a economia britânica em 2019, mas poderá ainda assim provocar um no final do período de transição em 2021 ou 2022. Por essa altura, a imigração já não será um problema premente. O Reino Unido poderá viver uma escassez de médicos e enfermeiros e as promessas dos brexiters terão sido denunciadas como falsas. O resultado do referendo sobre o brexit terá assim sido formalmente cumprido..Mas, assim como um parlamento não pode vincular parlamentos futuros, também os eleitores não podem vincular eleitores futuros. Por essa altura, já não estaremos a discutir a revogação do brexit, mas sim do regresso à UE ao abrigo do Artigo 49.º do Tratado de Lisboa. Aqueles que tinham 12 na data do referendo de 2016 já terão idade para votar. Presumo que os jovens eleitores não repetirão o erro de não se recensearem. Muitos dos eleitores mais idosos apoiantes do brexit terão já falecido. A demografia joga a favor da permanência, mais ainda em 2022 do que em 2018..Pode-se argumentar que uma tal campanha não tem hipóteses de sair vencedora. Um recurso ao Artigo 49.º obrigaria o requerente a aceitar todo o corpo da legislação da UE sem autoexclusão nem compensações. Como tal, por que não manter-se na UE e aproveitar as atuais autoexclusões?.Continuo a ouvir este argumento, mas a existência tóxica do Reino Unido meio dentro meio fora não tem funcionado verdadeiramente, pois não? Esqueçamos que a UE não se sentiria feliz com um regresso da Grã-Bretanha ao statu quo anterior. Um recurso ao Artigo 49.º proporcionaria uma segunda oportunidade. A última sondagem do Eurobarómetro indica que 54 por cento dos britânicos se sentem cidadãos da UE. Isto situa-se no nível mais baixo do espectro dos Estados membros, mas poderá ser o cerne de uma campanha em torno do Artigo 49.º.É lamentável que os defensores da UE dentro do Reino Unido se centrem na economia e excluam quase tudo o resto. O maior risco de uma campanha de reingresso no Artigo 49.º seria uma repetição do debate utilitarista e tristonho do ano passado. Uma campanha bem-sucedida para a UE necessitaria de um novo advogado, de alguém que pudesse defender a pertença à UE com base na identidade e não na contagem de feijões..E em relação ao euro? Em teoria, o Reino Unido teria de aderir à zona euro depois de reintegrar a UE. Mas a realidade é que nunca nenhum país será obrigado a adotar o euro contra sua vontade. A Suécia e a Polónia não dispõem de uma autoexclusão formal, mas também nenhuma delas vai aderir..Se a intenção do Reino Unido de reativar a sua relação com a UE é autêntica, então o Artigo 49.º é a sua melhor aposta. Uma segunda boa aposta seria um acordo de associação que vá além do mercado único e da união aduaneira. Mas existe um senão. Os pró-europeus necessitam de abandonar a ideia de revogar o brexit antes de março de 2019. Igualmente, precisarão do período de transição do Sr. Hammond porque, sem ele, uma estratégia em torno do Artigo 49.º seria infrutífera. Se o Reino Unido abandonar a UE em 2019 sem um acordo, como pretendem os brexiters mais radicais, ter-se-á desembaraçado de todos os aspetos da UE até ao final da presente legislatura. O Reino Unido terá já então em vigor os seus próprios acordos comerciais, o que dificultará muito mais o regresso à UE..Evidentemente, é possível que os brexiters façam uma gestão inadequada dos próximos dois anos e desencadeiem uma série de acontecimentos que conduzam à anulação do brexit antes de 2019. Uma estratégia em torno do Artigo 49.º não oferece garantias, mas o seu êxito é mais elevado do que uma tal sequência improvável de acontecimentos.