A empresa que pôs no léxico nacional as células estaminais

Crioestaminal. Desde 2003 que preserva células e tecido do cordão umbilical para salvar vidas, e o negócio já se expandiu pela Europa...
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Crioestaminal: o nome simplifica aquilo que a empresa faz. Numa expressão, criopreservação das células e tecidos estaminais presentes no sangue do cordão umbilical. O objetivo é salvar vidas. E o serviço, pioneiro em Portugal, já conquistou mais de 50 mil famílias.

A empresa nasceu nos corredores da Universidade de Coimbra, criada por um grupo de estudantes inspirados pela ideia de "de-senvolver uma tecnologia que estava a dar os primeiros passos", a criopreservação de células estaminais (células que têm a capacidade única de se autorrenovarem ou dividirem indefinidamente, podendo reparar tecidos danificados ou substituindo células que vão morrendo) - conta André Gomes, de 36 anos, fundador e administrador da empresa, à qual dedicou, até aqui, toda a carreira.

Da ideia (surgida em 2001) ao lançamento (2003) passaram dois anos, mas isso não impediu a Crioestaminal de ser pioneira na área. Foi a segunda empresa europeia do sector. E, de certa maneira, ajudou a meter no léxico nacional uma expressão que "nem existia em Portugal, células estaminais", sorri André Gomes.

Desde então que a Crioestaminal - sedeada no Biocant Park, um polo de inovação localizado em Cantanhede (distrito de Coimbra) - guarda células estaminais (recolhidas após o parto) para utilização futura. São mais de 70 as doenças que podem ser tratadas com este tipo de células, principalmente hemato-oncológicas (como algumas leucemias, linfomas e anemias). E a criopreservação permite armazená-las por períodos alargados de tempo (20 a 25 anos), até que o dador ou um familiar precise de usá-las.

Até aqui, mais de 50 mil famílias - de Portugal, mas também de Espanha e Itália - recorreram aos serviços da Crioestaminal. Dessas, só sete já tiveram de usar as células armazenadas. Mas é nesses casos que os responsáveis estão sempre a pensar. "Temos sete transplantes feitos. Isto já não é apenas guardar por guardar. Salvámos as vidas de sete crianças - tanto para uso próprio como para uso de irmãos", frisa Miguel Marti, CEO (diretor executivo) da empresa.

Agora, a preocupação é encontrar novas doenças tratáveis com o sangue do cordão umbilical. "Há centenas de ensaios clínicos a decorrer", explica André Gomes, enquanto Miguel Marti sublinha o investimento contínuo em investigação e desenvolvimento. "Tanto aqui como em parcerias com o Instituto Superior Técnico e o Instituto Português de Oncologia, de Lisboa, temos projetos que podem dar mais-valias para o País. Um deles, que usa células mesenquimais [que a empresa agora também recolhe] para ajudar a sarar feridas - por exemplo, em diabéticos - já está na fase de pedido de patente. Pode chegar ao mercado em cinco ou dez anos", revela ainda Miguel Marti.

De resto, em Cantanhede não falta ambição. Hoje, a Crioestaminal é a terceira empresa europeia do sector, tanto em número de transplantes como de amostras armazenadas - 40% da sua faturação vem do estrangeiro. E "o futuro passará por sermos um centro de excelência no desenvolvimento de tecnologia a nível mundial", assume Miguel Marti. "Estamos em três países, mas temos recursos, know-how e ambição de levar este projeto para outras geografias, na Europa e América do Sul", completa o CEO, um espanhol "só de nascimento", que vive em Portugal "há mais de 10 anos" e chegou à Crioestaminal, em 2011, para liderar e internacionalizar a empresa.

Assim, Miguel Marti sonha ter, daqui a 10 anos, "uma empresa portuguesa, mas global, presente nos cinco continentes". E André Gomes deseja que, então, "algumas dezenas ou centenas de pessoas tenham sido tratadas devido às tecnologias da Crioestaminal". É para isso que estão a trabalhar.

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