Divisões nas sociedades existem em quase todos os países. São a expressão da liberdade de orientação política, da liberdade de expressão e da liberdade de escolha. Mas se forem extremamente profundas, podem tornar-se um problema sério para o país conseguir desenvolver o seu sistema democrático, para funcionar adequadamente em benefício de todos os seus cidadãos..Ultimamente, o mundo vive em estado de emergência devido à pandemia da covid-19. A disseminação da infeção entre tantas pessoas já dura há muito tempo e, obviamente, não irá embora tão cedo. A vacinação que está em curso em muitos países, diminui no curto prazo o número de mortes e doenças graves. Também diminuirá a pressão sobre o sistema de saúde em todos os países e permitirá que os médicos lidem com as outras doenças que existiam antes e existirão depois da pandemia..O principal problema, ao que parece, está na diferença de entendimento do que está a acontecer e do que deve ser feito a respeito disso. A maioria das pessoas diria que temos uma pandemia de um vírus altamente infeccioso, que tem de ser combatida com a vacina, mas também com a diminuição acentuada dos contactos entre as pessoas. O que ouvimos dos especialistas tem lógica e em qualquer outra situação seria amplamente aceite pela maioria das pessoas. Mas, nesta situação de perigo prolongado da infeção, é óbvio que aquela está, de forma lenta mas decidida, a escapar ao controlo dos especialistas e a mover-se para o campo daqueles que estão a ver claramente a sua oportunidade de sair das sombras e espalhar as suas teorias loucas sobre a gigantesca conspiração organizada pelo "estado profundo", a indústria farmacêutica, etc. Seria de esperar que esse tipo de histórias aparecesse de qualquer maneira, mas a questão é saber até que ponto serão bem-sucedidas. E se elas tiverem cada vez mais sucesso entre o povo, os estados serão os únicos que poderão combatê-las, mas nem todos os estados terão capacidade para o fazer..A vacinação sempre teve os seus inimigos. Os antivacinação existem e têm agora tempo para serem ouvidos, devido ao problema da infeção prolongada. As medidas introduzidas pelos governos estão a perder lentamente o apoio público necessário em muitos países, especialmente após o início da vacinação, que se espera que faça com que a vida regresse ao normal..Aqueles que são contra a vacina acabam de receber outro elemento no qual estão a tentar basear a sua oposição. Existem inúmeras histórias sobre pessoas infetadas que foram vacinadas, independentemente das explicações credíveis dos especialistas sobre os limites da vacina. A expectativa de levantamento de todas as medidas e a perspetiva de introdução do chamado "passaporte covid" constituem agora outro sério problema na obtenção do apoio público para a vacinação..Além disso, no momento em que os governos deveriam estar até mesmo a fortalecer as medidas antipandémicas na limitação dos contactos, muitos deles estão lentamente a tentar olhar para a situação potencial após o fim do problema com o vírus e as perspetivas de permanecerem no poder. Este é o maior perigo para um fim bem-sucedido da pandemia. Qualquer político deseja naturalmente permanecer no poder se for eleito. Para isso, sentir-se-á sempre tentado a seguir a opinião da maioria das pessoas no seu país, ou a fazer coisas que terão o apoio dessa maioria. Este é o principal problema, porque o que as pessoas desejam não é o que deve ser feito para deter a pandemia. Neste tipo de situação, a maioria dos políticos está a tentar apresentar medidas dando uma no cravo e outra na ferradura: introduzindo as medidas e levantando-as ao mesmo tempo. Isso, é claro, vai aumentar a confusão entre as pessoas, que estão cada vez mais a tentar tornar-se "especialistas em pandemia", partilhando histórias sobre assuntos dos quais nada sabem..A pandemia da covid-19 deve ser combatida em muitos níveis, talvez demasiados, ao mesmo tempo. Para esse tipo de luta, são necessários políticos dispostos a arriscar a sua posição política em benefício de todos. Devem ser obrigados a saber melhor o que deve ser feito, para superar a falsa escolha entre a economia e a saúde das pessoas.. Nunca ninguém inventou a economia sem pessoas saudáveis, por isso não deve haver qualquer escolha para se fazer. A natureza fez isso sozinha, sem a ajuda de nenhum político..Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal