À direita, a tempestade perfeita

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Há pouco mais de três anos, André Ventura entrava no palco principal da política portuguesa pela mão de Pedro Passos Coelho ao ter sido escolhido para ser o rosto do PSD para a conquista da autarquia de Loures. Sendo um rosto conhecido das discussões televisivas futebolísticas de elevado decibel e equivalente falta de bom senso e por vezes de educação, rapidamente disse ao que vinha, quando fez afirmações discriminatórias sobre a comunidade cigana, e que levaram a que o CDS tenha abandonado a coligação que tinha com o PSD, manifestando um "profundo incómodo". O PSD, na pessoa do seu líder à altura, reiterou a confiança em Ventura, considerando Passos Coelho que não estava em causa o respeito pelas minorias e que não encontrava nenhum elemento discriminatório no então esclarecimento feito por André Ventura. Estava aberta a caixa de Pandora que a direita portuguesa nunca mais conseguiu fechar.

A um PSD que elegeu Rui Rio como líder, que se posicionava ao centro, em contraste com a deriva liberal de Passos Coelho, juntou-se um CDS liderado por Chicão, que em conjunto com os seus compagnons de route da Juventude Popular, tomou conta do aparelho do Largo do Caldas e silenciaram todos os seus opositores. Os resultados da economia portuguesa, a convergência de posições da Geringonça, a habilidade e capacidade política de António Costa, e uma inexplicável concretização de propostas e caminhos diferentes criou as condições para uma secundarização dos dois maiores partidos à direita do PS, e para um inevitável apontar de culpas para quem os dirige. É nesta ausência de combate que muitos simpatizantes e eleitores tradicionais do PSD e do CDS encontraram a sua orfandade política, o que constituiu terreno fértil para o crescimento dos modelos liberais, facilmente traduzidos em sociedades onde poucos têm muito, e muitos têm pouco, congregados na Iniciativa Liberal. Não obstante as odes ao liberalismo selvagem e anárquico, a IL nunca perdeu desde a primeira hora uma característica que é própria dos democratas: o humanismo. Outros viram na retórica bélica, na diabolização dos imigrantes, das minorias étnicas e religiosas, na divisão, na inspiração dos Trumps desta vida, uma forma política de se sentirem representados. O populismo apresenta soluções fáceis, pelo que se entende que em tempos onde os protagonistas dos partidos da direita não tiveram a arte nem o engenho de apresentar as suas próprias soluções, o Chega teve as condições adequadas para a sua ascensão.

O espaço político que o Chega tem aparentemente vindo a conquistar é um território que foi ao longo das últimas décadas pertença quer do PSD, quer do CDS. Para uma democracia que tem muito ainda para amadurecer, o crescimento de um populismo radical, disruptivo, de confrontação permanente, poderá vir a ser um problema. Mas não nos iludamos. O Chega é o resultado do vazio, das contradições e da falta de coragem da direita portuguesa. O crescimento desta extrema-direita renovada, que tem sabido angariar financiadores, começou por canibalizar o espaço e o eleitorado da própria direita, nomeadamente os partidos tradicionais que lhe deram voz e expressão desde 1974. Esta transferência de voto, a partilha do espaço mediático, a perda da liderança da agenda política, a penosa postura de mão estendida para obter ganhos eleitorais, é um problema para os partidos tradicionais da direita portuguesa. Terão que ser estes a refletirem e a solucionarem, através das atuais lideranças, ou com as futuras lideranças que resultarão da pressão exercida pelos aparelhos há demasiado tempo afastados do poder.

*Presidente da Junta de Freguesia de Alcântara

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