A deusa da cozinha

Desenvolta, comunicativa e sedutora, Nigella Lawson é a cozinheira que prepara uma refeição familiar em poucos minutos sem perder o ar arranjado de quem veio de uma festa, ao mesmo tempo que põe as mãos na massa, lambe a colher e delicia o mundo com os seus truques rápidos e simpatia natural. As mulheres querem ser como ela, os homens levá-la para casa...
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Aos olhos da maioria das pessoas, que julgam que a vida de quem passa os dias a manusear tachos e utensílios na cozinha se resume a fumos, toucas no cabelo e cheiro a refogados, a imagem daquela figura voluptuosa e desempoeirada parece caber em todo o lado menos ali. Mas Nigella Lawson é verdadeiramente uma diva talentosa: ao mesmo tempo que prepara sem pestanejar um caril de camarões e manga ou uma torta de frango com cogumelos e bacon, sabe inspirar as mulheres a serem deusas domésticas e deixa os homens a suspirar diante de tamanha sensualidade no ecrã. O jovem Jamie Oliver já não é o cozinheiro inglês mais na moda: Nigella veio para se impor com um charme à prova de fogo e aquela sua capacidade inata de comunicar, fazendo da cozinha uma paixão para todos.
«Acredito que cozinhar deve ser sinónimo de diversão e família, e que os meus atractivos têm sobretudo que ver com o facto de a abordagem que faço aos cozinhados ser verdadeiramente descontraída e nada rígida», explica Nigella Lawson, que aos 50 anos se recusa a impor regras na sua cozinha e convive perfeitamente com os quilos a mais que lhe arredondam a generosa silhueta e o desejo que lhe devotam mulheres e homens: elas por quererem parecer-se com a chef, eles por quererem estar com ela a todo o custo. Ainda assim, Nigella não gosta de ser referida como celebridade, não se considera uma cozinheira ou especialista na matéria (muito menos a fada do lar que os fãs insistem em ver nela), e cozinha simplesmente por gosto, porque lhe dá prazer e tem um efeito terapêutico toda aquela cadência de movimentos precisos de cortar, picar, polvilhar, envolver, tocar na carne mal passada, molhar, lamber, numa relação quase de flirt com a comida.
«É um modo de estar íntimo, sim, não tenho talento para ser alguém diferente quando cozinho», reconhece a apresentadora, considerando que as pessoas tendem a julgá-la uma sumidade só porque aparece na televisão quando, na verdade, não possui formação nesse sentido nem se preocupa em ter um estilo extravagante perante as câmaras. «Cozinho aquilo que adoro comer, é apenas nisso que consiste a minha abordagem», revela a mulher que se tornou uma espécie de Julia Roberts da cozinha, entra com a sua criatividade espontânea em casa dos portugueses através da SIC Mulher (Nigella Bites é o nome do programa) e é aclamada em doses iguais pelos públicos masculino e feminino.  
«Durante anos pensei que a arte da cozinha era território de homens, de chefs todos parecidos com o mestre Silva da Tele Culinária. Depois vieram as avozinhas como a Maria de Lourdes Modesto ou a Filipa Vacondeus… sempre gostei de cozinhar, mas achava estes programas um pouco maçadores», conta Luís Caetano, jornalista residente do programa Câmara Clara, da RTP2, e realizador e apresentador da Antena 2 (onde assina Um Certo Olhar, A Força das Coisas e Última Edição), deixando escapar que ainda hoje está para saber como é que Inglaterra produziu uma mulher assim, tão latina por dentro e por fora. Com Jamie Oliver, segundo ele, as coisas melhoraram bastante. Quando viu um programa da Nigella Lawson, porém, em Inglaterra primeiro e depois na internet, descobriu como o prazer de cozinhar pode sublimar-se a ver um programa de televisão.
«Nigella começa por prender o olhar por ser bonita, madura, voluptuosa. O corpo anuncia prazer – o da comida –, foge ao incompreensível cânone da magreza extrema imposto pela moda e pelas novelas televisivas, tem imaginação, desembaraço e bom gosto. Factores essenciais na vida e também no acto de cozinhar», refere Luís Caetano, que chegou a entrevistar a apresentadora para um dos seus programas de rádio, bebeu com ela umas caipirinhas no Bairro Alto, em Lisboa, e acabou definitivamente preso à simpatia de Lawson.
«O programa de Nigella é humano. Não tem uma cozinha de aço inoxidável impecavelmente limpa porque, na verdade, nenhuma cozinha está limpa e reluzente quando cozinhamos. E a comida é para se mexer com as mãos, é para provar nos diversos estados de preparação e com os dedos, se for isso o mais prático, e é assim que ela cozinha, além de ter o dom da comunicação», resume o jornalista, para quem Nigella Lawson, no seu modo de estar descomplexado, é um pouco como as revistas femininas que todas as semanas anunciam na capa artigos do género Dez Maneiras de Seduzir Um Homem: «É claro que faz de propósito uma série de números de pin-up [modelo cujas imagens sensuais produzidas em grande escala exercem um forte atractivo na cultura pop, assumindo um tom levemente erótico], porque sabe que os homens de bom gosto se deleitam com isso e que as mulheres a quem interessam as receitas aproveitam para anotar também uns quantos truques de sedução», sublinha Caetano, rendido: «E é uma mulher muito culta também, mas isso é óbvio.»
De pé atrás do fogão, com o cabelo solto nos ombros e as mãos esvoaçantes sobre água a ferver, pitadas de sal e misturas cremosas, Nigella movimenta-se com segurança e boa postura nos modos. Tantos anos a observar os truques da mãe, Vanessa Salmon, herdeira do império alimentar J. Lyons and Co. e uma eterna fonte de inspiração para a filha, fizeram que hoje nada pareça ser difícil de confeccionar, nem mesmo os pratos complicados de festas e banquetes que levam as pessoas à loucura. Do pai, Nigel Lawson, barão Lawson de Blaby e ex-chanceler do Tesouro (durante o governo de Margaret Thatcher), ganhou a determinação e a vontade de seguir em frente que lhe permitiram graduar-se na Universidade de Oxford e fazer carreira como jornalista, primeiro como editora literária no The Sunday Times e mais tarde como freelancer em publicações como o The Guardian ou o Daily Telegraph.
A sua relação bem resolvida com a comida resultou num convite para escrever uma coluna temática para o The Spectator e em 1998 Nigella publica finalmente o seu primeiro livro, How to Eat: The Pleasures and Principles of Good Food (Como Comer: os Prazeres e Princípios da Boa Comida), na altura muito encorajada pelo marido John Diamond, pai dos seus dois filhos, Cosima e Bruno, que viria a falecer em 2001, vítima de cancro. Vendidas as primeiras trezentas mil cópias que fizeram do livro um best-seller, em 2000 a autora publica o segundo título, How to Be a Domestic Goddess (Como Ser Uma Deusa Doméstica), um novo sucesso editorial que se fez acompanhar dos seus próprios programas televisivos e elevou a diva Lawson aos olhos do mundo.
«Nigella Lawson cozinha coisas simples, acessíveis, saborosas, incorporando cozinha italiana, viagens, fusões contemporâneas e aquilo que é o essencial da cozinha doméstica europeia: forno, estufado, memórias de infância. E há, na maneira como o faz, uma sensualidade pouco habitual, uma espécie de piscadela de olho que liberta os homens da visão das mulheres que passam a vida em dietas e a avisar por causa das dietas», observa Francisco José Viegas, escritor e fã número um da apresentadora, sem esconder a comunicação que os admiradores travam nos blogues, a troca de e-mails, a cópia de receitas, a imaginação de indecências. «Ela fala do prazer de comer, do prazer de cozinhar, do prazer de cozinhar para os outros e não apenas para as câmaras ou para a fotografia. A cozinha, em Nigella, é uma parte da vida quotidiana, do prazer de viver numa casa, de pôr a mesa, de jantar com amigos, de cozinhar para os miúdos, de rir, de vestir-se enquanto o forno aquece, de vir à cozinha em roupão para roubar um bocadinho de restos do frigorífico.»
Francisco José Viegas acha que a cozinha destes chefs actuais, dita de homens, é surpreendentemente amaneirada, laboratorial, cheia de arquitectura e de luvas. «Transformaram-na numa “oitava arte” que daqui a uns tempos se esgotará sem novidades nenhumas, mais seca e cheia de maneirismos do que uma modelo anoréctica», aponta. Falta-lhe o sabor, a gordura e a inspiração que Nigella lhe traz quando molha os dedos, inventa misturas ou lambe uma colher. «Precisamente o contrário da cozinha contemporânea, que é toda igual e está cheia de paneleirices.»
Numa altura em que o mundo vive preso a dietas e subjugado à ditadura da magreza, o corpo experimenta por outro lado novas formas de prazer, «liberta-se dos pudores que o aprisionaram durante tanto tempo e exibe os seus contornos e a sua sensualidade», sustenta a especialista em comunicação Angelina Nascimento, autora de uma tese sobre prazeres sensoriais e sacrifícios em nome da saúde e da estética corporal, explicando em parte o glamour de Nigella: é uma mulher confiante, que não teme a aparência curvilínea e come bolos, chocolate, molhos e pastas sem sentimentos de culpa. O advogado e cozinheiro francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, um dos mais famosos gastrónomos de todos os tempos, dizia que «comer é o prazer superior do homem» – visto ser o único que permanece quando todos os outros se vão – e prepara quem come para outros prazeres, nomeadamente o de provar, saborear, apreciar a invenção de novos pratos para quem se ama. O próprio chef catalão Ferran Adrià, conhecido como «o Picasso das panelas» e impulsionador de verdadeiras peregrinações gastronómicas ao seu restaurante El Bulli, já comparou o prazer de comer ao prazer sexual: uma festa para os sentidos, que deve ser desfrutada sem preocupação, comendo aquilo de que se tem vontade no momento.
«Os homens foram sempre grandes artistas, grandes técnicos, grandes teóricos, mas ouvimos um chef falar dos seus pratos e não me comovo por aí além», confessa Francisco José Viegas, desgostoso com o modo como os cozinheiros pensam os pratos para uma «burguesia exibicionista, com bolsa mas sem estômago, sem paixão». Já com as mulheres, defende, o caso é bem diferente: «Elas foram as escravas da cozinha. Lembro-me das avós, das mães e das tias, obrigando-se a alimentar famílias egoístas e machistas sem serem elogiadas, e penso que Nigella é a vingança de todas elas.»

A rainha boa de Alice
Quando a Rainha Branca prepara a poção que Alice terá de beber para recuperar o tamanho normal, misturando ingredientes repugnantes com a mesma graça com que faria um batido de frutos do bosque, a actriz que a encarna é Anne Hathaway, mas a alma é a de Nigella Lawson. Numa entrevista recente ao Los Angeles Times, o realizador Tim Burton revelou que foi na invulgar apresentadora que encontrou o tom que queria dar à Rainha Branca do seu filme Alice in Wonderland, graças ao seu jeito único e alegre de lidar com a comida. «Ela é realmente bonita, cozinha que se farta, mas depois também tem aquele brilho no olhar que nos faz pensar que ela é meio louca, no bom sentido do termo», explica Burton, mestre em criar personagens dúbias que se equilibram nos seus próprios contrastes. «Toda a gente tem o seu quê de estranho. Mesmo nas pessoas boas existe algo de errado, todos somos um pouco distorcidos de alguma maneira», diz. A Rainha Branca não é excepção e Nigella não podia ter sido melhor a emprestar-lhe a alma.

Numa ilha deserta...
A comida sempre foi importante para a família e os amigos de Nigella: quando não estão a comer, estão a cozinhar ou a falar sobre ela, e quase sem darem por isso, entre todos, reavivam laços e lembranças. A apresentadora não hesita mesmo em afirmar que a sua última refeição na Terra, ou aquela que levaria para uma ilha deserta, seria a carne ao molho béarnaise da mãe e as peras Belle Hélène da avó, «cozidas com gelado de nata e uma calda quente, escura e grossa de chocolate». Tudo tão simples e rápido de confeccionar que quase parece mentira.
Para o molho: misture três gemas de ovo com estragão seco, um pouco de vinagre de estragão e sal. Bata tudo numa tigela sobre uma panela de água a ferver (sem que a tigela toque na água), adicione manteiga aos cubos (um a um) até engrossar, como se fosse uma maionese quente com ervas, e acrescente sumo de limão a gosto para acentuar o sabor. Polvilhe com uma pitada de estragão fresco no final, «mas não muito para não parecer feno fresco», avisa Nigella.
Para a carne: grelhe uma alcatra com 2,5 cm de espessura como se fosse um bife, tire-a para uma tábua, salgue-a e deixe-a repousar. Corte-a na diagonal em fatias finas e sirva com salada verde e uma baguette, ideal para mergulhar no molho juntamente com a carne.
Para a sobremesa: depois de cortar as peras ao meio, tirando-lhes a casca e o caroço, deixe-as cozer numa calda de baunilha, água e a açúcar numa panela tapada. Enquanto isso, prepare a calda de chocolate, também facílima de fazer: misture duas tabletes de chocolate, meia chávena de açúcar e café solúvel (qualquer marca da sua preferência serve), adicione um pouco de gelado de nata, ligue tudo e pronto: sai uma calda de chocolate óptima para realçar qualquer sobremesa. Retire entretanto as peras da panela, disponha-as num prato e regue-as com a calda. No fim, sugere Nigella, «salpique com pistácio picadinho, que dá cor e um toque crocante».

Simplicidade radical
Almoço de Páscoa: não há nada melhor do que deixar a família rendida ao seu engenho culinário, questionando-se dias a fio sobre como terá conseguido aquela textura de suspiro numa sobremesa que, de tão bonita, dá vontade de chorar só de ver no prato. Nigella é a mulher que melhor soube radicalizar o conceito de simplicidade à mesa com requinte e é dela a pavlova de chocolate e framboesas que se segue.
Ingredientes: 6 claras de ovo, 300 g de açúcar, vinagre balsâmico (uma colher de sopa), cacau em pó (três colheres cheias), 50 g de chocolate negro em barra.
Para a cobertura: 500 ml de natas batidas, 500 g de framboesas (que podem ser substituídas por morangos ou frutos silvestres), chocolate ralado.
Preparação: aqueça previamente o forno a 180° C. Bata as claras em castelo até ficarem bem firmes. Junte os 300 g de açúcar lentamente, colher a colher, batendo sempre. Adicione a colher de vinagre balsâmico, o cacau em pó e 50 g de chocolate negro ralado, envolvendo tudo com delicadeza. Depois de preparado o merengue, passá-lo para uma forma baixa previamente forrada com papel vegetal, dispor a massa num montinho circular e alisar bem. Uma vez colocado o merengue no forno, baixar a temperatura para os 150° C e deixar cozer durante cerca de 1h15 (no final, a massa terá de ficar estaladiça e meio quebrada por fora e macia por dentro). Após deixar arrefecer, colocar por cima as natas batidas em chantilly, as framboesas e as farripas de chocolate para enfeitar. O sucesso é garantido.

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