A descoberta marítima da Alta Califórnia aconteceu há 480 anos, quando uma frota de três navios, comandada pelo português João Rodrigues Cabrilho, partiu da Nova Espanha e cartografou a costa da Alta Califórnia em 1542/43. Esta viagem histórica teve lugar apenas meio século depois de o genovês Cristóvão Colombo ter chegado às Caraíbas..A vida de Cabrilho (que morreu em 3 de janeiro de 1543) ainda esconde muitos mistérios, apesar do progresso biográfico substancial resultante dos trabalhos extensos e esclarecedores de Harry Kelsey e Wendy Kramer, entre outros. É com grande honra que anuncio aqui publicamente várias descobertas importantes acerca de alguns episódios da vida de Cabrilho, baseadas num número significativo de documentos históricos nunca contextualizados propriamente, compreendidos ou sequer devidamente estudados. No que respeita à temática da nacionalidade portuguesa de Cabrilho, para além da referência de Antonio de Herrera y Tordesillas (o cronista real de Espanha nos séculos XVI e XVII), o que se apresenta a seguir é claramente o conjunto mais robusto de dados alguma vez descoberto. Este trabalho irá ser publicado em jornais académicos, estando a decorrer a devida revisão independente por especialistas na área, num processo que levará largos meses a completar. Serve este artigo para introduzir as ideias básicas destas novas descobertas à comunidade interessada nos assuntos relativos a Cabrilho e à descoberta marítima da Alta Califórnia..O trabalho a publicar irá revelar muitas conexões novas, de grande importância, entre documentos históricos já conhecidos e o dealbar da descoberta marítima da Alta Califórnia. Traz novos dados sobre a complexa rede de indivíduos e eventos que culminaram nesta viagem épica, focando-se sobretudo na nacionalidade de Cabrilho e noutros portugueses donos de navios na frota de Alvarado-Mendoça de 1540-1543. Destaca-se a apresentação do testamento inédito de Bartolome Ferrer (datado de 1547), em que o piloto-mor de Cabrilho declara ser natural (contextualmente significando ser nascido e não naturalizado) de Albissola, perto de Savona. Ferrer era genovês e não espanhol, corrigindo o que é aceite frequentemente na literatura atual..Faz-se depois uma revisão crítica do contexto internacional à época de Cabrilho, dando-se muitos exemplos de estrangeiros (famosos e gente comum) naturalizados castelhanos, mas não nascidos em Espanha. Um caso paradigmático é a carta real de naturalização de Américo Vespúcio (de 1505), em que se pode ler a seguinte passagem elucidativa: "... daqui em diante ... faço-vos natural destes meus reinos de Castela e de Leão ... como se fôsseis nascido e criado neles ... e vos consintam ter quaisquer ofícios públicos reais ... que vos forem dados ...". Vespúcio era, portanto, natural de Castela, mas não lá nascido. Este é muito provavelmente também o caso de Cabrilho..Lendo cuidadosamente as descobertas documentais (de 2015-2016) da dra. Kramer, em rigorosamente nenhuma instância se declara explicitamente que Cabrilho nasceu em Espanha, mas sempre e apenas que Cabrilho era natural da atual Palma del Río. Tendo em conta as leis de naturalização de Castela no século XVI, é muito importante vincar esta correlação entre ter dupla nacionalidade e o "natural de" não significar necessariamente ser "nascido em". Não é, portanto, muito industrioso da parte de Kramer, Kelsey e outros, inventar agora um erro acerca da nacionalidade de Cabrilho na obra de Antonio de Herrera (c. 1615, em que este declarou que Cabrilho era português e uma "pessoa muito prática nas coisas do mar"), porquanto as conclusões prematuras acerca do "Cabrilho espanhol" pecam por ser simplistas, omitindo demasiados outros exemplos históricos de indivíduos com dupla nacionalidade, como Magalhães, João Dias de Solis, etc.. Detalham-se também as provas categóricas acerca de Alvar Nunes ser um piloto português e coproprietário do Santa María de Buena Esperança, muito provavelmente o segundo maior navio na frota de Cabrilho (talvez rebatizado como Santa Maria de La Victoria)..Considerando que Cabrilho era o dono e o construtor do San Salvador, estas são notícias muito reveladoras: é agora possível que marinheiros portugueses fossem os donos dos dois maiores navios que descobriram a Alta Califórnia!.Mais ainda: alguns documentos sugerem (mas não provam categoricamente, como no caso de Alvar Nunes) que António Fernandes poderá ter sido o dono português de ainda um outro navio na frota de Alvarado-Mendoça -- o Anton Hernandez, alternativamente apontado como sendo o segundo maior na frota de Cabrilho..Crucialmente, dando apoio à nacionalidade portuguesa de Cabrilho, documentam-se ainda novas, diversificadas e fortes provas circunstanciais acerca de "Juan Rodríguez(s) português" (que seria Cabrilho, com toda a verosimilhança) nas Honduras e na Nicarágua. Enquanto António Fernandes era um vizinho português de Granada (Nicarágua), "Alvar Nuñez português" e "Juan Rodríguez português" (os seus nomes, como escritos em documentos castelhanos) conheceram-se em León da Nicarágua, pelo menos em novembro de 1529..Os detalhes, discussão e contextualização deste conjunto de novas provas indicam consistentemente que Cabrilho e "Juan Rodríguez(s) português" sejam a mesma pessoa, do mesmo modo que Cabrilho era conhecido sobretudo como "Juan Rodríguez" na Guatemala..No que respeita ao possível local de nascimento de Cabrilho em Portugal, apresentam-se também documentos dos arquivos eclesiásticos da freguesia de Cabril (Montalegre) relativos a uma família Rodrigues em torno de 1520. Estes documentos foram descobertos pelo senhor Paleólogo Bento Miranda Pereira, que gentilmente os partilhou..Discutem-se também novos dados cronológicos de suprema relevância, baseados no radioisótopo carbono-14, que permitem validar os anos iniciais da década de 1530 como sendo aqueles em que Cabrilho ofereceu um crucifixo à sua família Rodrigues em Lapela (de Cabril), em concordância com a tradição oral ancestral..Sublinhe-se que nas medidas de carbono-14 (feitas no laboratório 14-Chrono da Queen"s University Belfast), apesar de surgir um pico de alta probabilidade para os primeiros anos da década de 1530, surge também outro pico de elevada probabilidade em torno de 1650. Uma análise estrita destes dados não descarta, portanto, outras datas possíveis para a idade do crucifixo..Apesar de estes resultados do carbono-14 não serem prova absoluta, eliminando qualquer dúvida acerca da idade do crucifixo, pelo menos vão ao encontro do que a família Rodrigues tem vindo a contar ao longo de muitas gerações, reforçando assim claramente a possibilidade de Cabrilho ter nascido em Lapela..O trabalho discute ainda homónimos de "Juan Rodríguez(s) portugués" (como o rico comerciante português do Panamá) que não eram o Cabrilho, e homónimos de outros indivíduos de destaque em muitos dos acontecimentos da vida de Cabrilho, incluindo "Francisco López portugués", que se terá talvez naturalizado igualmente na atual Palma del Río..Finalmente, discute ainda o que muito provavelmente será a primeira prova da existência do próprio testamento de Cabrilho..Em nome do interesse no progresso do conhecimento histórico, espero que estes contributos ajudem a abrir futuras avenidas que detalhem e clarifiquem ainda mais o papel de Cabrilho e de outros marinheiros portugueses neste período de grande dinâmica das primeiras descobertas marítimas do Pacífico Oriental.. Astrofísico português residente nos Estados Unidos (Califórnia), professor de astronomia e investigador de história e cartografia