Ao mesmo tempo que o Conselho de Segurança vai sendo o palco onde potências com direito de veto, e também com direito a ignorar a sua diminuta capacidade de contribuir com meios válidos para enfrentar os desafios à paz, segurança e desenvolvimento, ajudam à quebra de confiança na ONU, o G8 afirma- -se progressivamente como o Conselho de Segurança Informal dos países mais ricos, em processo de reformulação pré-constituinte de uma ordem que lhes reconheça a diferença e os interesses..A teia de ameaças e conflitos que se tem adensado nos últimos meses não parece ter dado espaço suficiente para registar e debater com a dimensão que a sua importância recomenda a reunião que o G8 realizou em Sampetersburgo nos dias 15/17 de Julho, com uma agenda que incluiu os temas mais inquietantes da actualidade. Com a circunstância de ter alargado o número de participantes convidados, para discutirem os temas da Agenda da Presidência Russa (segurança global da energia, desenvolvimento dos modernos sistemas de educação e luta contra as doenças infecciosas), e também a globalização, o comércio internacional e África, envolvendo líderes do Brasil, China, Índia, México, África do Sul e de várias organizações internacionais, incluindo a própria ONU, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, entre outras..Por outro lado, os EUA e a Rússia destacaram-se como líderes da Global Initiative to Combat Terrorism, que não dispensa os enquadramentos legais existentes, incluindo as resoluções 1373 e 1540 do Conselho de Segurança, visando fortalecer os esforços nacionais para a acção conjugada, para dar assistência aos Estados menos protegidos, para promover cooperações no que respeita a actividades nucleares pacíficas nos limites preservados do Tratado de Não Proliferação. Talvez convenha destacar o tema designado por Global Energy Security, que se traduz em procurar "assegurar suficiente, confiável e ambientalmente responsável fornecimento de energia a preços que respeitem as regras fundamentais do mercado"..Trata-se possivelmente da primeira posição que oficialmente assume, em termos legíveis, o reconhecimento do grave efeito colateral dos conflitos do Médio Oriente sobre a dependência ocidental das energias. O texto é expressivo: "Concordamos que o dinamismo e desenvolvimento sustentado da nossa civilização depende de um confiável acesso a energia. É mais bem assegurado pelo reforço do acordo entre países produtores e países consumidores, incluindo constante diálogo sobre a crescente interdependência da energia, segurança no fornecimento e procura. Sublinhemos que mercados abertos, transparentes, eficientes e competitivos são o alicerce da nossa estratégia de segurança energética. Também reconhecemos que governos e relevantes organizações internacionais desempenham um importante papel neste domínio." A transcrição é talvez extensa, mas necessária pela advertência implícita no que diz respeito ao agravamento das dependências que se projectam sobre a paz e segurança, aconselhando a revisitar lições de algumas emergências históricas, designadamente a importância que teve a política colonial de captura de matérias-primas. A crise petrolífera associada aos conflitos em curso e a subida de preços cujos efeitos perturbam severamente a economia e vida habitual das sociedades ocidentais ficam referidos a duas notas fundamentais: a dependência da dinâmica e desenvolvimento sustentado da nossa civilização de um confiável acesso à energia; a preferência pelo acordo entre produtores e consumidores.. O restante das considerações são corolários do modelo, sem referência a qualquer esperança paliativa de outras fontes de energia. O que não fica explicitado é se também foram meditados, e quais, planos de contingência para a hipótese de estas linhas directivas serem frustradas, colocando adversários onde se requerem interlocutores..A distância entre a eloquência dos discursos a propósito dos conflitos do Médio Oriente e a minguada capacidade de oferecer recursos para uma intervenção pacificadora não tranquiliza quanto à existência de um plano fiável de contingência para a falência do diálogo energético. Uma situação de incerteza agravada pelo facto de as sedes de meditação e anúncio deslizarem para instâncias sem relação com a ordem jurídica internacional, contribuindo para o descrédito dessa ordem sem fornecerem uma janela de visibilidade para a confiança.