A crise europeia

Publicado a
Atualizado a

A regra prudencial que não permite esquecer, sobretudo aos responsáveis pela atual governança do globalismo em progresso, é seguramente a de que o imprevisto está sempre à espera de uma oportunidade. Provavelmente o brexit do Reino Unido, que já em 2016 tornara claro que o objetivo de "uma união sempre mais estreita" não se lhe aplicaria e anunciava a urgência de definir finalmente o conceito final da União, um ponto que dominara os inquietos desde a Conferência de Messina, em 1955. Entretanto, porque a União não pode ter a ilusão de decidir sem atenção à circunstância global que deixou de ter na Europa o motor do seu dinamismo, os bloqueios foram emergindo, e apontados, mas sem resposta estrutural.

As correntes populistas, de feição da extrema-direita segundo a qualificação corrente, cresceram mais em ambiente de crítica do que de resposta, o ceticismo tornou-se mais duro do que imaginou o desistente Stefan Zweig, o problema do turbilhão das migrações tornou-as mais ouvidas, levando o próprio presidente Juncker da Comissão Europeia a declarar, perante os maires de França, em 31 de maio de 2016, que "trop d"Europe peut, semble-t-il, tuer l"Europe".

A questão da revisão dos tratados passou a estar sempre presente na ordem do dia do comentário internacional, enquanto os fatores negativos se avolumam, como a recusa dos países do Grupo de Visegrad (Hungria, República Checa, Polónia, Eslováquia) afasta seguir as decisões sobre o acolhimento dos refugiados, o que nunca aconteceu enquanto as migrações de muçulmanos foram por anos recebidas como mão-de-obra barata. Deste modo, o conflito entre os deveres humanitários, as capacidades relativas dos países destinatários dos fugitivos e a segurança tornada problemática pelo terrorismo a que respondeu um anti-islamismo crescente, o enfraquecimento do sistema de Schengen, a crescente opinião sobre a necessidade de dar conteúdo e sentido à defesa autónoma da Europa, porque a comissária responsável tornou claro sentir ameaçada a segurança europeia, são demasiados factos a explicar o evidente crescimento da ameaça de rutura da solidariedade europeísta, da solidariedade Atlântica surpreendentemente apoiada na contabilidade americana mas não nos factos que agravam o tema. Porque subitamente, em poucos dias, somaram-se novos alarmes justificados sobre o agravamento da crise da unidade europeia, quando a crítica do presidente da Comissão Europeia ao Parlamento Europeu tendia a ser esquecida, os factos impeliram a desenhar os pontos (5) que seriou para o que lhe parece o enquadramento da desejada reforma.

Em primeiro lugar, talvez a queda de popularidade do jovem presidente da França, cuja recentíssima triunfal eleição parecia aconselhar os partidos clássicos a repensar os programas, não esteja a ter esse efeito. Depois, a queda de popularidade da chanceler Angela Merkel, pela sua isolada fidelidade aos princípios sobre os refugiados, porque a islamização assusta e o valor-nação, tido por ameaçado, é invocado para justificar a reação. O inesperado Macron começa a sentir a dificuldade de realizar o seu projeto de reforço da unidade europeia, com o regresso da antiga política de inimigos íntimos. E, finalmente, o gravíssimo facto do chamado plebiscito na Catalunha. Não é apropriado citar o caso de Portugal, que não tem com a Catalunha afinidade. Mas tem seguramente com a unidade europeia à qual aparece um dos mais severos sinais de que o princípio de 1918, sobre a relação entre Estado e nação, exige o maior cuidado para não tornar inútil o princípio da regionalização, que é um método político cujo primeiro benefício é não implicar hegemonias étnicas, culturais ou religiosas. Um desenvolvimento conflituoso na relação interna de Espanha com a importante Catalunha tem o risco de reativar outros regionalismos espanhóis que foram suficientemente inquietantes e dolorosos, e fortalecer os separatismos que já ameaçam outros Estados da União.

A Europa ficará mais fraca, a paz não ficará mais segura, a leitura do futuro será mais pessimista. A campanha do anti-europeísmo encontrará motivos para enriquecer a estratégia, sem recursos para regressar ao tempo em que a Europa, com todos os seus defeitos, era todavia a luz do mundo. Neste quadro, não pode deixar de se evidenciar, ao lado da admiração pela Catalunha, que a violência não é um método consentido pelo ideário europeu, que reprova ativar a memória de 1640 ou, mais próxima, de 1939. Ainda não tendo sido encontrada resposta satisfatória para o brexit do Reino Unido, não será fácil, se a separação da Catalunha se consumar, evitar que a redefinição do espaço da União Europeia se veja agravada pelo contágio. O princípio da relação Estado-nação que Willson inscreveu na Carta da Sociedade das Nações não impediu que as autonomias fossem um instrumento das solidariedades que mantiveram os Estados multinacionais. A paz é o valor comum de ambas as fórmulas.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt