A crise egípcia e as lições de uma história recente esquecida

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Não é necessário retroceder muito na história contemporânea para encontrar alguns dos principais ingredientes da crise no Egipto. Bastará, por isso, percorrer a recente trajectória argelina para descobrir as semelhanças. Em 1988, assistiu-se, neste último país, a um levantamento sangrento contra o regime militar totalitário que ali "prosperava" durante décadas na órbita da antiga União Soviética. As pressões internas e externas obrigaram o poder a organizar, mais tarde, eleições livres e democráticas ganhas, em 1991, pela então recente legalizada Frente Islâmica de Salvação (FIS), organização dirigida por alguns djihadistas que, em tempos, se tinham envolvido no combate ao regime comunista de Cabul.

No programa eleitoral do FIS, adivinhava-se uma revisão constitucional que permitiria, se tivesse sido adoptada, a implementação de um Estado islâmico. Em 1992, o exército argelino anulou as eleições legislativas, dissolveu o FIS e prendeu os seus destacados dirigentes. Seguiu-se uma guerra civil sangrenta, protagonizada durante dez anos pelo Grupo Islâmico Armado (GIA), braço clandestino do FIS, com o trágico balanço de duzentos mil mortos e vinte mil desaparecidos.

Toda a proporção guardada, a situação no Egipto é quase idêntica: décadas de regime militar totalitário, iniciadas pelo Gamal Abdel Nasser (também aliado da ex-URSS) e prosseguida pelo Anwar Essadate e, mais tarde, por Hosni Mubarak. A pressão da rua, simbolizada pela Praça Tahrir, obrigou os militares, em Fevereiro de 2011, a afastar o presidente em exercício e a promover eleições legislativas e presidenciais livres, vencidas pelo partido da Irmandade Muçulmana e suportadas, no parlamento, por um partido salafista radical. No projecto de revisão constitucional do novo regime constavam indícios de instauração de um Estado Islâmico que levou milhões ao protesto. Este facto foi aproveitado pelos militares para efectivarem o seu golpe de Estado em Julho passado.

Já nos anos 90, alguém dizia que "na democracia não há lugar para quem quer usá-la para, depois, usurpá-la". No caso dos países referidos, a usurpação da democracia teria provavelmente acontecido se os processos eleitorais não tivessem sido interrompidos. Contudo, a situação actual no Egipto levanta três perguntas prementes, todas de difícil resposta: onde está o erro original? O que vai acontecer ao país daqui para a frente? Quais as consequências para o resto do mundo?

Relativamente à primeira questão, o erro poderá estar na incapacidade (ou falta de vontade) de introduzir reformas antecipadas, já na década passada. O regime de Hosni Moubarak preferiu a política da avestruz, ignorou as curvas de experiência, privilegiou o totalitarismo, a repressão e não preparou, em devido tempo, a desejada alternância. O erro pode estar, ainda, no facto de parte da comunidade internacional acreditar que o modelo democrático ocidental constitui um padrão inteiramente transponível para outras sociedades que, na verdade, nunca comungaram e, dificilmente, comungarão dos ideais respectivos.

Quanto à segunda, as consequências são imprevisíveis. Agora decapitada, a Irmandade Muçulmana entrará provavelmente na clandestinidade e coligar-se-á aos salafistas radicais. A instabilidade que paira sobre uma extensa zona geográfica, desde da Tunísia até ao Líbano, passando pela Líbia e pela Síria, propicia um terreno fértil para movimentos violentos que recorrem à guerrilha e ao terrorismo em prol dos seus objectivos. Não se pode ignorar, de igual modo, que o Egipto tem 82 milhões de habitantes (mais de que o dobro da Argélia, oito vezes mais de que a Tunísia e 13 vezes a população líbia), maioritariamente pobres e simpatizantes de Ahmed Morsi, presidente deposto.

No que se refere ao resto do mundo, não é por acaso que a precipitação dos eventos tem vindo a injectar uma dose de nervosismo na União Europeia, nos Estados Unidos da América e noutras regiões do mundo. Os riscos de perturbação do canal do Suez afectarão segura e substancialmente o preço do crude e de outras mercadorias - já em Março passado, a população de Porto Said tentou bloquear o canal. A situação ficará, portanto, mais agravada num cenário de atentados terroristas. Finalmente, salienta-se o facto de o Egipto e Israel partilharem fronteiras e, qualquer que seja a solução, a sua segurança deve ficar precavida.

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