Na última década, Portugal foi intervencionado pela troika, período seguido de uma recuperação económica, depois de uma pandemia e, em início de 2022, a Rússia invade a Ucrânia, provocando uma guerra. Todos estes fatores conduziram a uma crise energética e alimentar, aliada a processos especulativos na gestão dos preços e a uma fortíssima pressão inflacionista. E...como sempre, nada disto foi previsto pelos economistas. Na economia, apenas, é possível "prever o passado" e não há um benchmark que permita antecipar tendências..Os salários não acompanharam estes aumentos e os portugueses perderam poder de compra. As medidas sociais decididas pelo Governo apenas funcionam no papel. O BCE tomou as únicas medidas que a teoria económica conhece para combater a inflação: o aumento das taxas de juro para empobrecer ainda mais as famílias e reduzir o consumo..Em 2023, os portugueses ganham menos, em termos reais (por força da inflação), e pagam tudo mais caro. Os que têm empréstimos bancários, veem a sua prestação mensal aumentar de forma impensável. O aumento das rendas é inviável para muitos agregados familiares. Hoje, a crise na habitação é uma realidade..Os dados mais recentes, de julho, mostram que a inflação em Portugal está a desacelerar, o que não significa que os preços estejam a descer, mas antes a subir a um ritmo mais lento. Este indicador não reflete o aumento brutal no preço do combustível que se verificou em agosto, tendo a atingido o pico dos últimos 12 meses..A tudo isto, acresce uma brutal carga fiscal na classe média, a atingir um máximo em 2022 de 36,4% do PIB -- e que contribui fortemente para gerar uma economia paralela que se estima representar 35% do PIB português, ou seja 82 mil milhões de euros. Com o turismo, as exportações e a inflação a mascararem o crescimento do PIB declarado (ou seja, sem o PIB real, que inclui a economia paralela). Aliás, compreendo que esta falta de dados acresça à dificuldade dos economistas em fazer previsões..Não é preciso ser economista para intuir que se está a formar a tempestade perfeita para no quarto trimestre deste ano entrarmos em crise macroeconómica. As exportações tendem a desacelerar, uma vez que os principais destinos estão a reduzir os consumos. Veja-se a Alemanha que desacelerou no segundo trimestre e o impasse político que se vive em Espanha..Na microeconomia, os cidadãos com salários de classe média já entraram em crise há alguns meses. Só que ainda não demos conta, por vários motivos. Porque estivemos na silly season em que ninguém se preocupa com nada e a resiliência aumenta; pelos já referidos rendimentos paralelos, que desconhecemos; pela poupança que está a ser consumida; pela redução imposta ao consumo; pela expectativa do impacto positivo de apoios sociais que ajudem a superar as dificuldades económicas (redução IVA, taxa de carbono, etc.); pela expectativa da implementação do Plano de Recuperação e Resiliência e o impacto económico que terá no país, entre outros fatores..O quarto trimestre de 2023 vai ser um ponto de interrogação para muitos, com a crise a "a espreitar por cima do nosso ombro". Portanto talvez seja bom relembrar John Kennedy: "quando escrita em chinês, a palavra crise compõe-se de dois carateres. Um representa perigo e o outro representa oportunidade".. Diretor-Geral Jaba Recordati S.A.