O nome é no mínimo inusitado. Vasco Mendonça explica: "Tem a ver com a ideia de música de exteriores, de um ajuntamento de pessoas para assistir a um espetáculo musical. É um pouco aquela convocação: "Juntem-se cá, venham ver!", uma interjeição dirigida ao público, sendo que o mestre-de-cerimónias seria, neste caso, o piano.".E isto já exprime um pouco da natureza de "Step Right Up", o primeiro concerto para instrumento solista e orquestra de Vasco Mendonça (n. Porto, 1977), que estreia esta 6.ª feira na Gulbenkian. A obra integra a parceria SP-LX estabelecida entre a Fundação Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, com estreia no Brasil "marcada para o final de novembro, também com o Roger Muraro, mas com o Giancarlo Guerrero [Maestro Convidado Principal da Orq. Gulbenkian a partir de 2018-19] a dirigir.".Diante do património riquíssimo de concertos para piano, Vasco é muito sincero: "Se eu começasse a considerar a genealogia da obra que queria escrever, acho que não tinha passado do 1.º compasso...". Por isso, fez primeiro um certo trabalho de casa: "Ao longo de três meses, "papei" tudo quanto era concerto para piano moderno. E aqueles com que senti mais afinidade foram aqueles onde o piano é tratado de uma forma semelhante à que eu advogo", enumerando alguns exemplos: "o Concerto da Unsuk Chin [de 1996-97], o concerto "Left, alone", de Hans Abrahamsen [de 2015] e o "Duet", de George Benjamin [de 2008]." Depois, confiou na sua perceção pessoal: "Para mim, uma vantagem de ter um piano e uma orquestra em formato concertante é que à partida tens logo uma tensão entre essas duas "dramatis personae" e podes criar algo a partir dela, não partes do zero. E isso é libertador "de per si"". E prossegue: "Eu pensei em tudo o que o piano pode ser, desde a massa sonora de um "pathos" romântico à clareza cristalina do discurso do Classicismo. Mas a mim agrada mais a ideia do piano como caixa de música, como máquina musical." Uma "personalidade" que "admite alguns momentos de lirismo", embora estes sejam "apontamentos-exceção que confirmam uma regra que nos leva mais para a ideia de virilidade nesta obra." Vasco vai mesmo ao ponto de classificar de "implacável" a sua criação, na medida em que, justifica, "ela é muito sonora - barulhenta, mesmo -, assertiva e eivada de um certo caráter de música de rua, com algo de feérico.".Neste quadro, o 2.º andamento "tem um caráter mais interior e depois mais noturno, ao mesmo tempo que perpassa ali uma nostalgia devido ao material usado, o qual evoca a sonoridade tradicional do instrumento." O todo acabou por adotar uma "mui" tradicional estrutura Vivo-Lento-Vivo: "Era claro para mim que tinha de começar de determinada forma, e que ela seria viva; e era também claro que teria de acabar numa forma mais ou menos circular. Depois, por uma questão de "frescura", com o 2.º andamento a servir de contraste, cheguei à forma clássica de um modo muito natural"..Estamos assim diante de uma obra na qual se enfrentam "duas fantásticas máquinas musicais: o piano e a orquestra. Elas ora comunicam, ora não, ora convergem, ora divergem." Uma relação que se rege pela "instabilidade e imprevisibilidade", radicadas numa certa "estranheza" entre ambos: "O piano na verdade nunca pertence bem àquela "festa", nunca é bem um "deles" [orquestra], mas pode vir a abrilhantar essa festa da forma única como consegue, graças ao seu poder sonoro.".E a enfrentar o piano está uma "senhora" orquestra: "É uma orquestra mesmo sinfónica, de uma dimensão para a qual já escrevera em três ocasiões anteriores: duas para a Orquestra da Casa da Música e a outra para os 50 anos da Orquestra Gulbenkian." A diferença, aqui, estará na dimensão do "set" de percussão, a cargo de três instrumentistas: "Sempre me agradou a percussão abundante, pois acho que é uma forma de subverter, ou de amplificar, se preferirmos, o vocabulário orquestral; uma oportunidade de pôr nesse idioma coisas que não pertencem bem àquele mundo. Para mim, a percussão é essa "página branca" com que podes jogar livremente.".E dentre esta, uma "subsecção" agrega instrumentos/combinações bizarros/-as: "Tem o "water gong", os "talking drums", o "steel drum", seixos batidos, um crótalo sobre a pele de um tímbale, com emprego de arco e do pedal...". Só vendo e ouvindo! Mas Vasco justifica este arsenal também porque "como espectador, agrada-me ouvir de repente algo e ficar a pensar: "Mas donde é que saiu este som?..."" Apesar disso, diz, "a percussão está quase sempre integrada na textura, para efeitos colorísticos, à parte alguns gestos mais estanques associados mormente à percussão africana.".Na próxima 2.ª feira, os intérpretes da estreia voltam a reunir-se no palco do Grande Auditório para uma semana de sessões de gravação. Algo que não podia deixar Vasco mais feliz: "Foi uma confluência de episódios afortunados: por um lado, a Rolex Arts Initiative, que integrei há dois anos e que aceitou o meu projecto de um CD monográfico; por outro, a Orquestra Gulbenkian, sem a qual este CD não seria possível!" O CD será editado na Naxos, "em princípio ainda este ano. Se não, no início de 2019" e as obras que conterá são: "este Concerto, claro, mais a obra que fiz em 2012 para a Orquestra Gulbenkian, chamada "Group together, avoid speech" e que é uma espécie de "concerto grosso"; e a peça "Unanswerable Light", que escrevi para a Casa da Música em 2015. Penso que são três obras que definem muito bem a minha linguagem orquestral neste momento.".Uma vez editado, será decerto um empurrão para que Vasco Mendonça possa "step right up" no circuito internacional da nova música!.A geração de 1977.O programa deste concerto tem a invulgar particularidade de todos os compositores que nele figuram - além de Vasco Mendonça, a islandesa Anna Thorvaldsdottir e o norte-americano Mason Bates - terem nascido no mesmo ano: 1977. Sendo que, quer de Anna, quer de Mason, se trata de primeiras audições na Fundação. Dela ouve-se "Aeriality", obra de 2010-11; já de Mason Bates escuta-se "Anthology of Fantastic Zoology". Detenhamo-nos um pouco nesta obra, já que o seu autor é um dos mais destacados e refrescantes compositores vindos da área erudita na atual cena musical norte-americana: trata-se de uma sinfonia (dividida em 11 secções) inspirada no livro homónimo de J. L. Borges e estreada em junho de 2015, em Chicago, pela Chicago Symphony Orchestra (que encomendou a obra), dirigida por Riccardo Muti (a quem é dedicada), tendo obtido uma receção crítica muito positiva. Já "Aeriality" é um poema sinfónico estreado em novembro de 2011, pela Orquestra Sinfónica da Islândia (que encomendou a obra), na ocasião dirigida por Ilan Volkov. No ano seguinte, Anna receberia o prestigiado Prémio do Conselho Nórdico para a Música..Concerto: Zoologia Fantástica Solista: Roger Muraro Orq. Gulbenkian/Benjamin Shwartz 15/6, Grande Auditório FCG, 21.00 entrada gratuita, com senhas de acesso a levantar na bilheteira