Oprojeto da União Europeia, com variações de modelos numerosos e até seculares, tem evidentemente um passado de desilusões quanto às esperanças e estruturas, mas o facto é que a ideia da unidade sobreviveu quer redefinindo os valores de referência quer as estruturas das propostas. Os historiadores vão caracterizando as épocas recorrendo à semântica que não faz esquecer a ambicionada e desejada unidade. Esta também tem acento ciclicamente variável, conforme põe em evidência a comunhão dos valores que são premissa da paz e cooperação, quer resignando-se a dar nome à desordem, a exigir um ponto final, incluindo o militar..Uma destas épocas, caracterizada como período chamado da Europa Conquistadora, em que as iniciativas das navegações e descobertas foram ponto de partida, com conflitos internos pela hegemonia de um dos poderes competidores, finalmente foi chamada "Luz do Mundo", que em todo o caso dominou pelo menos colonialmente. Nesse ponto alto do poder coletivo, a relação de interesses evoluiu para uma chamada "Europa Sangrenta", com duas guerras mundiais que pareceram não poder ter réplica possível no futuro, o qual tem hoje um presente ameaçador dessa esperança, que a criação da União Europeia, finalmente conseguida, tinha fortalecido, e agora mostra sofrer as primeiras sérias dificuldades..Não é apenas o risco de uma nova guerra que inevitavelmente se mundializará destrutivamente se os meios disponíveis mais sofisticados, e em mãos pouco responsáveis, forem usados. Trata--se, fora da circunstância que rodeia a União e na qual pouca influência mostra poder ter, de uma crise que vai multiplicando os componentes especificamente internos. Da circunstância externa ocupa-se, com evidência no que toca ao Ocidente, a viagem que se deseja diplomática do presidente dos ainda poderosos EUA, o qual já originou dúvidas fundadas sobre a segurança atlântica e deu um passo equivalente no que respeita à UNESCO, sempre com argumento contabilístico. Mas o problema das migrações descontroladas pela desordem na origem, e articuladas com o terrorismo invocador de valores religiosos, está a originar a já chamada "banalização dos populismos", do euroceticismo, neste caso efeitos agravados pela crise económica e financeira que fragiliza a confiança nas melhorias alcançadas, designadamente em Portugal, pela dependência de incontroláveis fatores não domináveis pelos governos nacionais. Entre eles, e nesta data com relevo para o separatismo tentado, mais uma vez, pela sempre desejosa de independência, Catalunha, parte fundamental da Espanha, que não consegue fácil resposta conciliadora, com efeitos económicos inevitáveis na vizinhança, e contágios previsíveis em mais de um membro da União..Para não particularizar, basta talvez recordar que desde 2014 analistas contam 174 deputados eurocéticos (23,2%) no Parlamento Europeu, formando um grupo em 2015, segundo notícias fiáveis a considerar. De qualquer modo, o euroceticismo é afirmado detetável na Hungria, na Polónia, na Áustria, no problema da Ucrânia, mas sobretudo no brexit do Reino Unido, o segundo desde Henrique VIII. É certo que a ameaça da Europa conquistadora racionalizou a unidade do chamado Terceiro Mundo contra o Ocidente, mas também parece verificado que a ameaça externa ou gravemente interna é a que de regra desperta e fortalece a ideia, nunca morta, da unidade europeia. É por isso que a questão da defesa surge como uma exigência, que não se agudiza em face da ameaça pressentida ou já experimentada, mas sobretudo pela relação deficiente de meios em face do brexit da Inglaterra que retira com o maior exército e a maior esquadra da Europa, em período da crise que não enfrentará facilmente os pesados recursos financeiros para uma defesa autónoma, e com os fracionamentos defendidos em mais de um dos Estados da União, a qual não tem conceito estratégico nem vozes de estadistas que tenham herdado as capacidades que conduziram à vitória, à União e ao desenvolvimento depois da paz..A Europa enfrenta uma "policrise", que não tem apenas origem na circunstância que a rodeia, mas sem adesão vivida a um conceito estratégico, que finalmente a faça recordar de novo, para a mobilizar, a voz que a tempo a fez prevenir da Cortina de Ferro que finalmente caiu, e que agora a faça colocar a unidade na primeira linha do conceito estratégico que tem de formular e praticar, para evitar os separatismos e o triunfo do euroceticismo. O pluralismo das pertenças, que a crise da Espanha colocou na primeira linha da ameaça que pode agravar-se pelo contágio, é um valor que o facto do globalismo obriga a assumir, pela inteligência do diálogo e não pela violência.