Ayamonte, no outro lado do estuário do rio Guadiana, frente a Vila Real de Santo António, é, cada vez mais, ano após ano, passagem obrigatória dos muitos turistas, portugueses e de outras nacionalidades, que povoam a costa algarvia. Depois de uma manhã de praia ou quando esta se apresenta cinzenta, sem sol, Ayamonte é um apetite..As razões para esta afluência de gente são muitas primeiro, porque a pequena cidade andaluza, fronteiriça, está ali a dois passos; segundo, porque oferece uma paisagem urbana que a maior parte das cidades algarvias não retribui, com as suas frentes de mar onde há muito se instalou o mau gosto; depois e ainda porque o comércio ayamontino é rico, variado, exibido a um preço convidativo. Deste modo,encontram-se facilmente produtos das mais variadas franjas de mercado ou utilidades com design de ponta, o que é raro encontrar do outro lado da fronteira. Alimentação, vestuário leve, de estilo, sapatos, chinelas, malas de senhora, produtos de higiene. Os bolos de creme ou os bombons de Madame Dulce, uma belga há muito aqui radicada, têm fama e concorrência apertada. Até as bombas de gasolina aqui não escapam ao rodopio desta avalanche (devido à diferença no preço dos combustíveis)..O rio Guadiana separa dois mundos, duas maneiras de ver a vida, embora a civilização seja a mesma. Ayamonte não tem ainda 20 mil habitantes, mas em breve ultrapassará este número com a entrada em funcionamento do projecto Costa Esuri ( 12 mil camas, entre hotéis, vivendas, campos de golfe). Seja como for, a cidade conserva o aspecto plateresco das grandes urbes andaluzas, florida, aromática. .Sabe bem passear descontraidamente pelas suas ruas de toldos brancos amenizando os efeitos do sol. Sabe bem tomar um café, um refresco, nas esplanadas das suas formosas praças - o Paseo de la Ribera, junto à marina, e a da Laguna, onde está o Ayuntamiento. Repletas de palmeiras, de madressilvas e buganvílias, ambas conservam o maneirismo, a arte decorativa, em que são sábios nuestros hermanos. .Aqui o mobiliário urbano é o mesmo que antes da Guerra Civil. Os velhos candeeiros de ferro forjado bizantinos, o mesmo chão de tijoleira vermelha, os mesmos bancos, pilastras, cornijas de azulejo moçárabe, vidrado. Todo um expressionismo urbano, uma gramática decorativa de grande intimidade, que predispõe o visitante. Quem domine estas coisas da cultura urbana de hoje sabe que isto é assim, que os espanhóis não apostam apenas, como os portugueses, no sol e praia, "vendem" as suas cidades com emoção, estilo, com classe..É verdade que Ayamonte não tem a "movida" que Ibiza e Marbelha possuem. Mas para lá caminha milhares de sevilhanos, madrilenos, extremenhos, portugueses, passam aqui as suas férias. Ayamonte não recolhe ainda o jet set espanhol - os marqueses de Grignon, de Cubas, de Villaverde, os rubirosas da estâncias de estalo - mas a noite aqui é já muito animada..Também tem as suas salas nocturnas, mas essencialmente a animação de Verão é exterior, gratuita. A edição deste ano do Festival Internacional de Música teve dois pontos altos. O concerto de música portuguesa de Dulce Pontes, no Auditório Amador Jimenez, e o concerto da Orquestra Sinfónica de Berlim, que interpretou obras de Rossini e Tchaikovsky..O festival já terminou, mas a animação promete continuar. As Festas da Senhora das Angústias, a padroeira desta cidade, que decorrem de amanhã até 10 de Setembro (ver texto ao lado), estão a ser planeadas ao milímetro e a alegria do canto flamenco vai jorrar pela noite dentro. A vedeta será a malaguenha Diana Navarro, cantante, grande artista da copla e da saeta. .Mas os ayamontinos deram-se bem com a voz da portuguesa Dulce Pontes e vão trazer as suas verbenas populares para animar as ruas, com concertos ao ar livre das bandas do Montijo e do Samouco. Em 2005, As Angústias deixam muita gente na expectativa e nova enchente portuguesa é quase certa. Diana Navarro vai ter oportunidade de cantar para a multidão o seu recente álbum cosmopolita, No te olvides de mi.