A cidade do delta do Amazonas

Publicado a
Atualizado a

Belém está quase em cima da linha do Equador, mas o clima não é tão hostil quanto se imagina. É claro que o calor é intenso, mas refrescado frequentemente pela chuva, que cai quando lhe apetece e não com hora marcada como dizem as narrativas românticas. À beira de um rio tão largo que parece mar, está marcada pela fusão entre modernos arranha-céus, modestas casas baixas, chalets Art Nouveau dos gloriosos tempos do ciclo da borracha e edifícios coloniais portugueses, muitos dos quais agora recuperados.

"Queremos que os portugueses venham conhecer a Amazónia lusitana. Em nenhum lugar do Brasil se sentirão tão em casa quanto no Pará". Adenauer Góes, presidente da Paratur nos últimos anos (entidade que, com o apoio da TAP, convidou jornalistas portugueses a ir à região e a um congresso de cozinha paraense), não quer confusões entre a realidade do seu estado cheio de selva, rios e chuva e o seco Nordeste das pousadas perfeitas.

"O Pará é para quem tem um certo espírito de aventura e até gosta de estar afastado de televisão e de celulares [telemóveis] em pousadas de turismo rural", diz Adenauer, que quer fazer de Belém ponto de partida para cruzeiros nos rios amazónicos, um pouco como o Cairo está para o Nilo.

Nestes caminhos fluviais, os portugueses poderão encontrar Óbidos, Santarém, Colares, Barcarena, Beja, Oeiras do Pará, Salvaterra, Soure, Chaves, Bragança, Monsarás (assim mesmo), Porto de Moz, Melgaço, Condeixa, Vila do Conde, Portel, Alter do Chão e outras localidades que justificam o nome de Amazónia lusitana, testemunhas do espírito destemido dos nossos antepassados numa região que até hoje intimida europeus e onde o padre António Vieira esteve a dirimir conflitos com os índios e a sonhar com paraísos terrenos multiculturais.

Há duas atracções óbvias para qualquer turista que visite Belém um, os edifícios que foram recuperados nos últimos anos pela dupla de arquitectos Paulo Chaves (este, secretário de Cultura do estado nos dois últimos mandatos) e Aurélio Meira. O outro são os estranhos sabores da Amazónia, com frutas, farinhas, peixes de rio e muito mais que pode ser visto na imprescindível visita ao mercado Ver-o Peso. Fica mesmo ao lado do porto onde os barcos descarregam o pescado e o açaí, a fruta que só de toma em sumo ou sorvete e que os frequentadores das academias de ginástica transformaram em energético natural favorito (ver artigo na página ao lado).

A herança portuguesa aparece em força no recente projecto Feliz Lusitânia, que abarca a cidade velha orgulhosa das suas casas antigas com azulejos. O pólo é o reabilitado Forte do Presépio, que data da fundação de Belém em 6 de Janeiro de 1616 pelo capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco. Vindo de São Luís do Maranhão, ele passou a bordo o Natal de 1615, o que justifica os nomes da cidade e do seu primeiro edifício.

Mesmo ao lado, a Casa das Onze Janelas (século XVIII) teve a restauração premiada pela UNESCO, com jardins com vista para a baía, um Museu de Arte Contemporânea e um concorrido Boteco das Onze. Também por ali, o Museu de Arte Sacra (antiga igreja de São Francisco Xavier, hoje Santo Alexandre) e a bela Catedral da Sé. Ainda no âmbito da Feliz Lusitânia, recuperaram o Parque da Residência do Governador e o esplendoroso Theatro da Paz, construído em 1878 com o dinheiro da borracha tendo como modelo o Scala de Milão.

Obras recentes foram também a Estação das Docas, extensos armazéns portuários que hoje abrigam restaurantes e lojas, a lembrar as Docas lisboetas, e o Pólo Joalheiro, que só no ano 2000, depois de uma sinistra revolta de presos, deixou de ser o presídio de São José Liberto. Agora, além de um estonteante Museu de Gemas, tem joalharias e oficinas de ourives.

Outro local de visita obrigatória, e de ainda mais recente recuperação, o Mangal das Garças abriu em Janeiro, à beira-rio, com um óptimo restaurante, um borboletário e um viveiro de aves. Tudo enquadrado pelas muito verdes e altivas aningas, plantas típicas das margens, construções em madeira e bom gosto tropical chic.

Quanto a épocas boas para visitar, parece que as temperaturas não variam muito, mas chove mais na época que coincide com a nossa Primavera e menos na do Outono. E é precisamente no segundo domingo de Outubro que a cidade entra em estado de graça com a procissão do Círio de Nossa Senhora da Nazaré (outra herança lusa), a ponto de ser considerada "o Natal do paraense" e a maior manifestação religiosa do Brasil, com mais de dois milhões de romeiros a desfilarem pelas ruas do centro histórico.

Depois das modas do Rio, do Nordeste e, agora, Florianópolis, talvez seja altura dos portugueses irem ver como está a cidade que fundaram no delta do Amazonas.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt