A China de Xi

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É mera questão de tempo até a China ultrapassar os Estados Unidos como primeira potência económica, mas as taxas de crescimento dos últimos anos (na ordem dos 6% a 7%) mostram que o modelo de desenvolvimento lançado sob a égide de Deng Xiaoping depois da morte de Mao Tsé-tung está a atingir o limite. Mesmo assim, os resultados obtidos nestas quatro décadas (a China era a décima economia em 1980, atrás de Itália) confortam o regime, que pouco a pouco foi deixando de lado a ortodoxia ideológica sem nunca abdicar do controlo sobre a economia.

E por isso a curiosidade sobre o XIX Congresso do Partido Comunista que hoje se inicia centra-se naquilo que o secretário-geral Xi Jinping (também presidente da República) vai propor para o próximo quinquénio de modo a minimizar a desaceleração da economia e também se na sua equipa passará a constar um sucessor à frente do partido e do Estado. Surpresas (tirando talvez a sua vontade de ir além de dois mandatos) é algo que não parece provável tendo em conta o perfil do líder chinês, filho de um guerrilheiro que lutou ao lado de Mao pela proclamação da República Popular em 1949.

Entre os desafios que a nova China enfrenta está o envelhecimento da população (que levou já ao fim da política de filho único), o aumento dos custos de produção (com países como o Vietname ou a Birmânia a serem mais competitivos), as ambições consumistas da classe média e o equilíbrio ambiental. Para lidar com tudo isto, o PC necessita de ser tão respeitado como temido e por isso desde o princípio Xi se esforçou por perseguir os quadros corruptos e combater a ostentação dos dirigentes. Sem a ideologia para o legitimar, o regime precisa de ser visto como competente e honesto aos olhos dos 1400 milhões de chineses. Xi até agora tem dado provas de uma liderança em geral sábia sem abdicar da mão dura, como bem sabem os opositores internos, os movimentos pró-democracia em Hong Kong e o governo taiwanês.

Do ponto de vista global, este congresso é importante para Xi prosseguir a afirmação da sua aura de líder mundial, rentabilizando a rede de influência económica chinesa em dezenas de países (até da Europa) numa altura em que os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, mostram--se mais isolacionistas do que tem sido habitual desde a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, a vantagem do soft power americano trava as pretensões chinesas de voltarem a ser o centro do mundo. Xi terá aí de ser menos castrador e dar mais espaço à criatividade do seu povo.

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