Na fábrica Sicasal, em Vila Franca do Rosário, Mafra, a história está também nos números: ali se abatem mil porcos por dia, mandam-se semanalmente para o mercado 500 toneladas de carne processada e 1000 de carne fresca. É também a história de uma fábrica que nunca deixou de laborar, nem quando foi parcialmente devastada por um incêndio, há três semanas, nem durante o Verão "revolucionário" de 1975, quando um comité saneou cinco operários, mas manteve na gestão o "patrão" Álvaro Santos Silva, hoje com 73 anos..A fábrica perdeu o sector do desmanche de carnes devido a um grande incêndio, mas os 650 operários e o "comandante" Álvaro Santos Silva, presidente do conselho de administração há 43 anos, mantêm a chama acesa..A Sicasal é uma indústria de carnes bem portuguesa, cujo nome está implicado numa viragem da mentalidade industrial em Portugal. A fábrica começou por se chamar Mota e Silva (ainda na década de 60), um nome pequeno, mais familiar, junção dos apelidos dos dois sócios, para se transformar em Sicasal- Sociedade Industrial e Comercial de Agricultura e Salsicharia Lda (mais tarde passou a Sociedade Anónima)..A mesma Sicasal que na década de 80 abasteceu os militares das Forças Armadas de Angola (FAA) durante a guerra civil. "O nosso cliente era só as FAA. Mas depois assistimos com alguma perplexidade, em reportagens televisivas, aos guerrilheiros da UNITA a comerem também enlatados e enchidos Sicasal", recordou Álvaro Santos Silva. Ex-militar na guerra de Angola, o patrão da Sicasal diz com humor que "se na hora de ir beber água ao mesmo rio eles faziam tréguas talvez na hora de comer as fizessem também"..O sócio passou a sogro.O mentor da transformação da Mota e Silva em Sicasal foi Álvaro Santos Silva, que juntou esforços com o amigo Mota quando veio de Angola. "Eu tinha regressado de Angola e montei um negócio de aves. O Mota tinha uma casa de matança de porcos. Decidimos juntar o negócio das aves com o dos suínos." O Mota sócio viria a ser mais tarde, já com a fábrica transformada em Sicasal, o Mota sogro. Isto porque o jovem Álvaro, então com 27 anos, se apaixonou e decidiu casar com a filha do sócio, uma estudante de Medicina com 21 anos. Álvaro iniciou os seus "descobrimentos", com viagens pela Alemanha e França, reinados da charcutaria, para ver como se fazia. "Aqui chocava-me ver abater 30 a 40 porcos da forma tradicional. Ou ver homens a transportar porcos às costas sem usarem sequer uma bata. As minhas viagens pela Europa serviram para ver que nas indústrias francesa ou alemã os porcos já não eram abatidos de forma tradicional, que já havia o sistema de atordoamento. Ou que já havia o sistema elevatório e não era preciso os homens andarem com os porcos às costas." Um admirável mundo novo que trouxe para a indústria de carnes Sicasal. "A tecnologia que implantei na fábrica ainda está actual hoje em dia." Equipamento "que dava outra capacidade de produção". No início dos anos 80, do plano inicial dos 500 porcos abatidos por dia (250 para transformar na fábrica e outros 250 para o mercado, o que "já era rentável") passou-se para os 1000. "Ninguém na concorrência atingia esse número, era um escândalo nacional." Na década de 90, a Sicasal entrou na "era da embalagem". Antes a procura era mais pelos enchidos. Depois, com a fase das embalagens, começou a haver muita procura pelos fiambres, mortadelas e salames, que já estavam "ao nível do que se fazia na França ou na Alemanha"..Dois filhos seus entraram para a administração, Filomena e Francisco, e outro, Luís, tem um negócio em Angola com produtos Sicasal. Álvaro Santos Silva passou a mensagem aos seus operários no dia 15 de Novembro: "Nas dificuldades há novas oportunidades." Para operários residentes em Vila Franca do Rosário, que viram crescer os filhos do patrão, este optimismo vale ouro.