A Célula de Sheffield

O romance de estreia de José Gomes Mendes, antigo secretário de Estado e colunista do DN, conta a história de Karim, um menino que cresceu pobre nas ruas do Cairo e no pós-Primavera Árabe é recrutado por um grupo de oração que o leva pelo caminho da doutrinação islâmica. Entretanto, o jeito para o futebol acaba por levar Karim até à cidade inglesa de Sheffield. Envolvido numa trama de ódio, traição e terror, a sua vida passa a nada valer nos planos da Irmandade Muçulmana. Depois do Porto, <em>A Célula de Sheffield</em> é hoje lançado em Lisboa. Aqui ficam alguns excertos do livro.
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A metamorfose de Karim não ficou circunscrita ao reforço da fé. O momento histórico que presenciara trouxe contexto às suas convicções. Até então, a pobreza era uma condição que não questionava, uma sina que vivia com naturalidade num quotidiano rotineiro e descontraído. Valorizava mais o que tinha, que era muito pouco, do que o que não tinha, que substancialmente desconhecia. Não era capaz de ter uma medida daquilo que poderia, mereceria ou deveria conquistar. A vida era uma viagem, com muitas curvas, subidas e descidas, mas cujo destino estaria naturalmente nas imediações do ponto de partida. Agora, essa fatalidade estava completamente dinamitada na sua mente.

As horas seguintes a uma vitória difícil são sempre importantes para um jogador. O ambiente da equipa, o reconhecimento pelos pares daquele que teve um papel decisivo no jogo, o trajeto de regresso e o descanso do guerreiro até que é vencido pelo cansaço e se entrega ao sono são prazeres inigualáveis. Não há problema pessoal, profissional, religioso, o que seja, capaz de destronar aquele sentimento de júbilo. Karim adormeceu, em casa, feliz.

O telefone tocou, destruindo o silêncio tardio da manhã. Tateou a mesa de cabeceira, depois o fio do candeeiro e, por fim, o telefone. Atendeu. O seu ouvido foi inundado por um choro contínuo. Era Abdalla.
- Karim, o nosso irmão partiu para junto de Alá - disse, com voz trémula, regressando de imediato ao choro monocórdico.
Karim sentiu uma vibração aguda e dolorosa a percorrer-lhe todo o corpo, até que se alojou no peito. Tentou dizer algo, mas soçobrou. Terá passado um minuto até ter conseguido balbuciar algumas palavras.
- O que aconteceu?
- Foi encontrado morto, numa rua de Birmingham. Vou poupar-te aos pormenores.
- Mas como foi isso? Quero saber... Conta-me, Abdalla.
O agente respirou fundo, como que a ganhar coragem, e acedeu.
- O nosso irmão, que Deus misericordioso o tenha no Paraíso, foi encontrado enforcado numa árvore...
- Enforcado? Como é isso possível? Ele não tinha razões para isso, nós precisávamos muito dele e da sua orientação.
- Karim... O nosso irmão não se suicidou.
- Então?
- O seu corpo foi encontrado por outros irmãos que regressavam da Mesquita de Birmingham e tinha pendurado ao pescoço um cartão com uma mensagem manuscrita.
- O que dizia a mensagem?
- Eu não estive no local, mas os irmãos enviaram-me uma foto. É uma mensagem de cariz xenófobo.
Cada palavra de Abdalla soava como uma bofetada. Precisou de algum tempo até controlar os soluços.
- Abdalla, estás aí? Envia-me a foto, eu quero vê-lo pela última vez.
- Karim, não é uma boa ideia. Procura descansar...
- Não, não, eu quero ver.
Abdalla enviou a mensagem com a foto, que Karim abriu, ansioso. Era visível um corpo envergando um thoub branco, pendurado pelo pescoço pelo que parecia ser um cabo de bateria para automóveis agarrado a um tronco de árvore. Agarrado ao pescoço pendia um cartão velho com a tal mensagem, em inglês, rabiscada em letras desordenadas: Vão para a vossa terra, camelos árabes terroristas.
- Malditos ingleses! - explodiu Karim. - Alguém chamou a polícia?
- Não. Não queremos que as autoridades inglesas comecem a investigar as suas atividades. A nossa esperança é que ninguém fale e que isto não seja do conhecimento público. Já não podemos trazer o nosso irmão de volta. Como bem sabes, este é um momento crucial para a nossa causa. Estamos às portas de uma grande operação.
Karim sentia uma revolta incontrolável. Não aceitava perder o amigo, ainda por cima daquela forma.
- Obrigado, irmão Abdalla. Falamos mais tarde. Preciso de rezar.
Entregou-se à dor. À medida que as horas passavam e revia os acontecimentos dos últimos tempos da sua vida, foi ligando os pontos e formando a ideia de que nada seria casual. A vontade de Alá expressava-se de formas diversas, nem sempre compreensíveis ao primeiro olhar. A descoberta do caminho da verdade e do propósito da vida podia implicar momentos de dúvida e de dor, mas chegaria o dia em que era dado o sinal inequívoco.

Com o ano de 2014 a esgotar-se, ouviam-se já os primeiros ensaios de festejos nas ruas, antecipando o Ano Novo. Nada que interessasse a Karim, que permanecia barricado no seu quarto. Já era tarde, mas tinha de fazer aquele telefonema. Seria breve, muito breve.
- Abdalla, a resposta é sim. Quero marcar o golo que não deixará ninguém de pé.
Alguns segundos depois, o agente respondeu.
- Allahu Akbar, Deus é grande.

O estalido desligou-o da vida, como se a cabeça tivesse explodido.
Um zumbido ganhou corpo, primeiro num ouvido, depois nos dois. Seguiu-se uma espécie de embriaguez que lhe entorpecia o corpo. Sentiu-se a ser transportado. Que maravilhosa sensação. Era como lhe tinham prometido. Os anjos, seres feitos de luz, sem sexo, obedientes a Deus, a levar a sua alma para o Paraíso, devolvendo-lhe a vida depois da morte, mas a vida do Paraíso.

A Célula de Sheffield
José Gomes Mendes
Porto Editora
308 páginas

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