A Casa de Papel é uma série contra o capitalismo?

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Vejo na televisão um grupo de ladrões vestidos de vermelho e com máscaras de Salvador Dalí a cantar "Bella Ciao". O meu sobrolho de cínico levanta-se um pouco: "A Revolução, afinal, chegou pelo Netflix?!"...

Ivo Livi, um italiano levado para França em bebé pela família fugida a Mussolini, acabaria chamado Yves Montand com direito a estatuto de símbolo da canção e do cinema franceses: gravou, num tempo em que ainda era comunista, uma versão de "Bella Ciao" solidária com os "partisans" resistentes ao nazi-fascismo.

Durante anos, na segunda metade do século passado, "Bella Ciao" foi utilizada para animar manifestações comunistas em Itália e no resto da Europa (até o coro do Exército Vermelho a gravou), foi apaixonadamente cantada nas lutas operárias e estudantis do Maio de 68 em França, foi glosada em inúmeros protestos contra os abusos do capitalismo.

Aqui, em Portugal, animou gira-discos atrevidos contra a ditadura salazarista e, mais tarde, ocasionalmente, serviu de celebração da conquista da liberdade.

Depois, desvaneceu...

Antes disso a natureza da canção foi outra: primeiro um protesto contra a Grande Guerra e, a seguir, um símbolo da resistência francesa à invasão alemã na Segunda Guerra Mundial.

Antes da era de mortandade globalizada, "Bella Ciao" fora, originalmente, um canto de trabalho, de autor anónimo, entoado por camponesas italianas.

Século e meio depois vejo no YouTube um duo em bandolim e guitarra portuguesa a glosar os assaltantes da "Casa de Papel", a série televisiva que adotou "Bella Ciao" como canção-tema, através de uma versão instrumental e saltitante da melodia, a misturar comédia física burlesca com algum virtuosismo musical.

Uma corruptela em rap de "Bella Ciao", cheia de conotações sexuais malandrecas, acaba de chegar ao primeiro lugar, no Brasil, do consumo do serviço de streaming Spotify. Explica MC MM, o cantor deste "Só quer vrau" dedicado "às malandras assanhadinhas": "Eu não sabia o significado da música quando a gente fez o funk. Depois eu tive a curiosidade de procurar e conheci a história revolucionária, muito importante. Eu não trouxe esse teor, só quis fazer um entretenimento."

"Bella Ciao" teve, portanto, transfigurações que a levaram dos campos do norte de Itália no século XIX até às glórias corais dos movimentos de massas do século XX. Nesta última encarnação, a do nosso século XXI, "Bella Ciao" parece nada ter a ver com o significado de outras eras, parece querer esquecer a vontade de transformar o mundo para se contentar, apenas, em ser "entretenimento"... que, se calhar, era a sua função primordial nas plantações de arroz onde se ouviu pela primeira vez.

Na série espanhola que travestiu e ressuscitou "Bella Ciao", o líder dos assaltantes da Casa da Moeda explica que não vai roubar: apenas se limitará a fabricar mil milhões de euros em notas, dinheiro que não pertence a ninguém. E garante ter legitimidade para isso: afinal, afirma, está a repetir o método do Banco Central Europeu para salvar bancos falidos e que se resume, desde 2008, em imprimir mais e mais notas em papel, entregues, conforme as necessidades, diretamente a banqueiros que roubaram ou fizeram desaparecer milhares de milhões de euros em poupanças. "É papel, isto é só papel sem qualquer valor", grita, a dada altura, o ladrão moralista, rasgando notas de 50 euros.

Os heróis desta série televisiva inesperadamente popular são pessoas do povo. Os homens, quase todos, têm origens humildes, alguns são rudes, pouco cultivados, outros aprenderam sozinhos, numa confusão autodidata, a citar Nietzsche, Marx ou Kierkegaard. As mulheres são bonitas, mandonas, decididas, mas há uma carismática líder da polícia que é vítima inverosímil de violência doméstica.

Há muitos estereótipos na "Casa de Papel", muita receita espetacular de banalidade cinematográfica e algum sexo forçado na dose habitualmente servida às audiências. Mas também há surpresas formais desconcertantes: aqui não há louras deslumbrantes e até se arranjou uma arrasadora de corações que mostra a celulite; aqui não há adónis de pancadaria elegante e até se transformou em líder carismático um míope introvertido com postura submissa.

Este hipotético manifesto contra o capitalismo faturou milhões suficientes para deixar os investidores satisfeitos: já renovaram para uma continuação. É entretenimento puro, sim, e isso não tem mal nenhum.

Porém... Imagino, neste dia primeiro de maio, Dia do Trabalhador, multidões, por essa Europa, por esse mundo fora, saírem à rua para as manifestações habituais a recuperarem, graças ao êxito de "Casa de Papel", as palavras de "Bella Ciao": "È questo il fiore del partigiano/ o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!/ È questo il fiore del partigiano,/morto per la libertà!".

Ui!, às vezes basta uma canção para mudar muita coisa nesta vida...

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