Reintrodução. Extinta no final do século XIX, a 'cabrapyrenaica' regressou à serra Amarela e do Gerês, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, graças a programa de reintrodução executado na vizinha Galiza. Hoje estão contabilizados 400 exemplares.Procura de território e caça ameaçam a espécie .Era um sábado, em Fevereiro de 1999. Miguel Dantas da Gama percorria mais uma vez um trilho do Parque Nacional da Peneda-Gerês em busca da cada vez mais rara águia-real. Nesse dia teve uma surpresa. "De repente as silhuetas de um, depois dois, finalmente três animais, uns duzentos metros abaixo do topo da escarpa onde me encontro. (...) A cabra montês está de volta. Um reixelo (macho adulto), uma fêmea e uma cria, pastam em liberdade no Parque Nacional da Peneda-Gerês". O relato está expresso no livro A Cabra Montês do Gerês, da extinção à reintrodução, um novo desafio de Miguel Dantas da Gama, recentemente publicado pelo Fundo Para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS)..Quase uma década volvida, a população de cabra pyrenaica está estabilizada. De acordo com dados fornecidos pelo PNPG, "estão identificados cerca de 400 exemplares, a viver nas encostas das serras Amarela e Gerês". Henrique Carvalho, que no parque nacional acompanha de perto estes animais, considera que "a população está a evoluir favoravelmente". Essa evolução, por paradoxal que possa parecer, pode ser um risco para a espécie..Dantas da Gama explica que " a expansão do território ocupado pela cabra montês tenderá a aproximá-las dos locais utilizados pelos rebanhos de cabras domésticas", o que no seu entender traz vários riscos para a cabra selvagem. A transmissão de epidemias, concretamente a sarna sarcópica e a brucelose. Por outro lado, vão, concerteza competir por espaço e recursos alimentares, podendo daí advir subnutrição, o que implicará dificuldades no ciclo reprodutivo. Há ainda o risco sério de "cruzamento entre indivíduos selvagens e domésticos, com a consequente degeneração da espécie silvestre"..Uma outra razão, a que acabaria por conduzir a cabra do Gerês à extinção, em 1890, a caça volta a ameaçar estes animais. Miguel Dantas da Gama alerta que "a caça à cabra poderá ser agora praticada por caçadores furtivos que aproveitarão uma vigilância menos apertada", embora ressalve que o problema tenha mais acutilância do lado de lá da fronteira..Algo que para as cabras acaba por ser indiferente. Os animais, como é obvio, não conhecem fronteiras. Aliás foi do lado de lá, do parque do Xurês, que as cabras que hoje povoam o parque nacional vieram, graças a um programa de reintrodução, iniciado em 1992. É com os responsáveis do Xurês, garante Henrique Carvalho, que "os estudos de monitorização estão a ser feitos", através de "acções regulares de fiscalização", para evitar o regresso aos últimos anos do século XIX de onde nos chegam, através dos relatos de Tude de Sousa, que durante mais de 10 anos , entre 1904 e 1915, foi regente florestal na serra do Gerês. .A presença da cabra contribuirá por certo para o equilíbrio ecológico do ameaçado parque nacional . Um dos beneficiados será o lobo. Como explica Henrique Carvalho, "a cabra montês é uma presa potencial do lobo", podendo por isso contribuir para a sobrevivência dessa espécie tão contestada pela população residente naquela área protegida, a mesma população que, de acordo com os responsáveis do PNPG, reagiu bem à presença da cabra selvagem, um ser herbívoro, que come cerca de vinte quilos de ervas, flores e folhas, pelo que não ameaça os animais domésticos.