Houve um tempo em que a Bélgica estava na vanguarda da Europa. Foi o segundo país do mundo a industrializar-se, o fundador da art déco e do surrealismo e produziu cientistas laureados com o Nobel que descobriram - entre outras coisas - a partícula de Deus. Eu nasci e fui criado neste país, mas temo que estejamos agora na frente de um caminho muito menos positivo para a Europa. Apesar de o Estado Islâmico ter reivindicado a responsabilidade pelos atentados terroristas de terça-feira em Bruxelas, eles foram também sintomas de uma falha visceralmente belga. As instituições de um Estado bem policiado e eficientemente governado têm estado a evaporar-se desde há décadas. A Bélgica foi dilacerada pelas exigências das suas conflituosas comunidades de língua flamenga e francesa. Ao mesmo tempo, ela foi esvaziada por um projeto europeu ambicioso, que subsidiou e deu poder às regiões do país, a expensas do Estado. As instituições belgas foram esvaziadas, deixadas impotentes para lidar com os desafios da imigração e incompetentes para lidar com uma ameaça extremista crescente. Esta é basicamente uma história de investimento falhado em todas as formas de capital - físico, humano e institucional. Os políticos desperdiçaram a riqueza do Estado para comprarem o seu caminho de volta ao poder, ciclo eleitoral após ciclo eleitoral. O investimento tornou-se supérfluo, a compra de votos e os gastos sociais passaram a ser a prioridade. Os eleitores belgas, que permitiram que este estado de coisas persistisse, partilham parte da culpa. Quando as siderurgias e as minas de carvão da Bélgica foram fechadas, os governos preferiram negar o resultado inevitável e pedir emprestado para subsidiar essas indústrias deficitárias. O peso da dívida pública do país alcançou um pico de 140% do Produto Interno Bruto. Em vez de atender aos requisitos de redução da dívida para a adesão à nova moeda, o euro, na década de 1990, o governo da Bélgica optou por falsificar orçamentos, alterar estatísticas, vender ativos a preços de liquidação e deixar o investimento crucial num impasse. O resultado foi catastrófico. O gasto público com investimento caiu mais de metade, passou dos 5% do PIB em 1980 para pouco mais de 2%. No início, foi possível ignorar os efeitos, porque a Bélgica teve a capacidade de se apoiar no stock passado, mas essa almofada desapareceu há muito tempo. Há 30 anos que se fala na construção de um serviço de comboios suburbanos em Bruxelas, semelhante ao RER de Paris ou ao novo Crossrail de Londres. O terreno foi comprado, mas o caminho-de-ferro permanece semiconstruído. Nem sequer temos mantido a infraestrutura que temos. Buracos nas estradas obrigam frequentemente a que quatro faixas de rodagem sejam reduzidas a uma. Telhados de museus deixam entrar água, enquanto obras-primas ficam desprotegidas. Recentemente, os túneis da principal artéria da capital estiveram fechados durante meses, porque 20 anos sem a manutenção adequada tinha--os transformado num risco para a segurança. Havia fundos disponíveis para todas estas prioridades, mas os políticos canalizaram o dinheiro para outro sítio. As transferências sociais, um vencedor eleitoral certo, aumentaram de 23,5% do PIB em 1980 para 30,7% em 2014. O aumento foi para a redistribuição, como subsídios de desemprego vitalícios e pensões de reforma antecipada a partir dos 50 anos. Como se isso não fosse suficiente, os partidos políticos da Bélgica dividiram o emprego no setor público entre eles. Para se ser jornalista na estação de televisão pública é preciso ser-se filiado num partido político. O mesmo acontece até com empregos menores a nível municipal. As conexões políticas, em detrimento do mérito ou do esforço determinam as promoções. Bruxelas, a minha cidade, foi a mais afetada. Incapazes de chegar a acordo para um divórcio pacífico, porque ambos os lados reivindicavam a capital, a francófona Valónia e a flamenga Flandres saquearam-na. Bruxelas pode ser a terceira região mais rica da Europa em rendimento per capita, representando um quinto do PIB belga, mas só pode cobrar impostos aos seus residentes, não aos muitos trabalhadores que se deslocam de fora dos limites da cidade. Em resultado disso, os cofres da cidade estão sempre vazios. As divisões policiais e os 19 conselhos municipais da cidade não foram fundidos porque a comunidade flamenga, que responde por apenas 10% da população da capital, ficaria por lei com metade das chefias autárquicas da cidade. A consequência foi a ineficiência e a falta de coordenação. Foi por isso que a polícia demorou tanto tempo a encontrar Salah Abdeslam, o homem mais procurado da Europa após os atentados terroristas de novembro, em Paris. Durante quatro meses ele escondeu--se à frente do nariz do aparelho de segurança da Bélgica, no bairro de Molenbeek, em Bruxelas. Perante as crescentes taxas marginais do imposto sobre o trabalho, muitos dos jovens competentes deixaram o país. Os altos níveis de remessas e de licenciados belgas que se mudam para outras economias desenvolvidas sugerem uma fuga de cérebros. Aqueles que ficam vão para o setor privado, privando as instituições públicas - incluindo os serviços policiais e de segurança - da excelência. Aqueles que tentam dar o seu melhor estão sobrecarregados pelo tamanho dos problemas, correndo de uma emergência para outra, incapazes de se concentrarem nos desafios de longo prazo. Com a saída dos belgas chegaram os migrantes pobres e sem instrução do Norte de África. Fortemente subsidiada pelo sistema de segurança social mais do que generoso da Bélgica, mas, ao mesmo tempo desprezada, uma grande parte desta população imigrante tem vindo a virar-se para dentro, alienada da sociedade em geral. Muitos homens e mulheres jovens foram radicalizados. Um Estado em falência não foi capaz nem de conter a imigração ilegal nem de gerar um ambiente económico em que o setor privado pudesse criar postos de trabalho para jovens imigrantes de segunda geração. Em vez disso, eles foram deixados a apodrecer em guetos como Molenbeek, marcados por uma elevada taxa de desemprego, pelo crime e por uma desenvolvida economia da droga. Atentados terroristas como os que atingiram o Aeroporto de Zaventem e o metro de Bruxelas na terça-feira podem acontecer em qualquer país - a Bélgica não inventou o Estado Islâmico. Mas o meu país precisa de deixar de viver em negação. O facto de Bruxelas ter produzido tantos dos perpetradores de atrocidades jihadistas na Europa foi a conclusão lógica das nossas falhas. Temos de manter a calma, como dizem os ingleses, mas não de continuar por este caminho. A tragédia desta semana deve, finalmente, tornar-se o catalisador que obrigará a Bélgica a mudar..Fundador da Acheron Capital e colunista da Bloomberg