É verdade que a frequente incapacidade das plataformas de streaming valorizarem os seus filmes não esgota a diversidade que, apesar de tudo, existe na respetiva oferta. Mesmo a Netflix, tão indiferente a alguns tesouros "escondidos", está ligada a alguns dos títulos mais empolgantes dos últimos anos - lembremos apenas os casos exemplares de Mank, de David Fincher, ou Blonde, de Andrew Dominik..Tais casos são, afinal, exceções que confirmam uma regra muito básica: produzir filmes e mais filmes que se limitem a citar modelos reconhecíveis pela maioria dos espectadores, garantindo a ilusão de que há um certo cinema de géneros (comédia, drama, terror, etc.) que continua a existir de forma estável e consistente. Aí está mais um para ilustrar essa ilusão, com chancela da Netflix, precisamente: Um Dia e Meio é uma produção sueca que tenta rentabilizar algumas regras tradicionais do policial - construído a partir de uma situação de reféns -, mais não conseguindo do que exibir uma vulgaridade à beira de um patético amadorismo..À partida, havia uma certa curiosidade para descobrir esta estreia de Fares Fares na realização. Nascido em Beirute, em 1973, ele é um ator naturalizado sueco que tem surgido em produções com alguma importância. Assim, para lá da sua presença em séries como Westworld (2016-22) ou Chernobyl (2019), vimo-lo em filmes como 00:30, A Hora Negra (2012), de Kathryn Bigelow, e A Conspiração do Cairo (2022), de Tarik Saleh, este há poucas semanas estreado entre nós..Com a sua figura imponente e os traços dramáticos do rosto e da pose, Fares Fares "ofereceu" a si próprio aquela que seria a personagem "pivot" da história que se conta em Um Dia e Meio. Assim, ele é o polícia que enfrenta a situação, insólita e perturbante, de um homem que, na sequência da rutura do seu casamento, rapta a ex-mulher para que ela o conduza à filha de ambos... As coisas complicam-se quando o agressor (sempre com uma pistola ameaçadora), a mulher e o próprio polícia viajam a caminho de um destino cada vez mais improvável....A definição de todas estas personagens está marcada por um simplismo dramático que, não poucas vezes, se torna involuntariamente caricatural. Quando o grupo chega a casa dos avós (que têm a seu cargo a criança), a discussão familiar que se gera possui mesmo qualquer coisa de farsa grotesca, acumulando lugares-comuns psicológicos, tudo sustentado (?) pelo over acting gratuito dos atores..Como se isto não bastasse, a personagem do raptor vai atribuindo os falhanços da sua existência à sua condição de emigrante, acrescentando à mediocridade artística do filme a ligeireza de um toque atual de "denúncia" para satisfazer as boas consciências. Tudo isto exibindo o emblema da Warner Bros., um dos estúdios míticos da história de Hollywood, neste caso muito longe da nobreza dos seus clássicos, incluindo alguns sobre situações de reféns - quem se lembra de Um Dia de Cão (1975), obra-prima de Sidney Lumet com o genial Al Pacino?.dnot@dn.pt