Caminhamos à beira do 2.º mês da batalha de Gaza. Com uma "trégua humanitária" pelo meio. O tempo suficiente para que a comunidade internacional, mas muito em particular os Estados Unidos (EUA) - a potência dominante na região - e os principais atores regionais, possam considerar de forma realista e prospetiva os grandes momentos estratégicos, que aqui estão em causa: a guerra; a paz; a reconstrução de Gaza; e a implementação da fórmula sempre idealizada e fugidia da solução de dois Estados na região..A guerra é sem dúvida o elemento mais trágico e doloroso desta equação. Do desfecho desta e das portas que a mesma possa abrir (sim, porque a guerra, na sua idiossincrasia extrema, fecha, mas também pode e deve abrir portas) poderá depender o sucesso de todas as restantes e decisivas etapas desta narrativa. Não poderá haver de novo "uma paz perdida", situação que transportará para uma quase impossibilidade no nosso tempo, a existência de dois Estados vizinhos, soberanos e viáveis. Num contexto, claro, em que a segurança do Estado de Israel se assuma como inquestionável..Israel não só perante os seus cidadãos, mas por uma questão de sobrevivência como Estado, só tem nesta batalha uma única aposta ganhadora: eliminar o Hamas dos destinos da Faixa de Gaza, neutralizando a sua estrutura de comando e operacional e condicionando todo o seu apoio logístico e militar. E, claro, procurar obter a libertação de todos os restantes reféns. Situação inconcebível de violação extrema do Direito Humanitário, que quase passou para um patamar de normalidade na observância da política mediática. Como objetivo subsequente: desmilitarizar e garantir a segurança, neste período limitado de tempo, em todo o território de Gaza. Qualquer outra situação que não leve ao cumprimento destes objetivos militares, seria sempre percebida por inimigos e adversários, como uma derrota de Israel, e a sua fraqueza militar implicaria o desnorte político interno e a continuação por tempo indeterminado de guerras e batalhas contra o extremismo do Hamas, do Hezbollah e de outros grupos radicais..O Hamas obteve, em boa verdade, nesta narrativa geopolítica de guerra duas importantes vitórias, e logo no 1.º dia. Primeira vitória: terminou de forma abrupta com os esforços diplomáticos então em curso para o estabelecimento de acordos bilaterais entre Israel, a Arábia Saudita e outros países do Golfo (processo de normalização) sob a égide dos EUA. Segunda vitória: trouxe de novo para o grande plano do debate internacional a questão palestiniana e da própria Faixa da Gaza. Para o Hamas ganhar, basta não ser aniquilado. Para isso terá de resistir em muitas das zonas de ação, permanecer encoberto, escudado e apoiado pela população local e manter a estrutura mínima de comando no exterior e interior de Gaza. Em simultâneo continuar a contar com o apoio de parte significativa da comunidade internacional, retirando partido da guerra em curso no espaço mediático e das questões humanitárias decorrentes dos ataques israelitas em massa, com danos colaterais evidentes, e assim garantir uma vantagem de âmbito estratégico..Como irá ser o futuro debate no seio da exigente sociedade israelita? Como sair da batalha de Gaza, definindo um trajeto virtuoso de paz e acrescentando a possibilidade de encontrar um caminho partilhado, com vista à existência de um Estado autónomo palestiniano? A atual correlação das forças políticas em Israel, com a predominância de partidos e coligações extremistas de direita e de caráter ultraortodoxo não é propícia a saídas airosas para este problema. É, no entanto, muito plausível que os partidos e alianças favoráveis à solução dos dois Estados, possam inverter esta realidade de forma democrática no pós-guerra..E depois desta batalha o que resta? O que todos podemos constatar é que, não obstante o apoio sempre enfatizado dos países árabes e muçulmanos à causa da Palestina em todo o mundo, na realidade não existem, por parte destes atores internacionais, propostas e compromissos políticos consistentes e agregados para a resolução deste "eterno" problema. A Liga de Estados Árabes limita-se a cumprir amiúde o seu papel declamatório. O Egito, muito interessado no gás natural israelita e em preservar as suas fronteiras livres de refugiados, está praticamente ausente do foco de resolução do conflito, exceto na componente de mediador humanitário, a par do Qatar. Tal como a maioria dos Estados da região, por razões diversas. A Turquia é um dos atores geopolíticos da região mais inconformado, mas mais inconsistente, e sempre muito desconfiado do eventual protagonismo que os seus rivais árabes possam vir a ter. A Autoridade Palestiniana e o seu velho líder Mahmoud Abbas encontra-se sem poder efetivo e num completo patamar de omissão e ausência. O mesmo se poderá dizer da Europa em geral, apenas acrescentando o significado da irrelevância geopolítica demonstrada. Até o Irão olha para os EUA como o único ator capaz de resolver a crise! E as próprias Nações Unidas deixaram há muito de ser um elemento com capacidade de transpor soluções viáveis para a prossecução do patamar seguinte, o da paz desejada. Agora, em boa razão, todos olham de modo algo paradigmático para os EUA de Joe Biden e Antony Blinken, antes que seja tarde e possa renascer, quem sabe, o "Diabo"!.Coronel e especialista em Geopolítica Energética Eduardo Caetano de Sousa | LinkedIn