"A parte superior da lata deve estar brilhante, oleosa. O peixe deve permanecer inteiro, coberto de azeite ou de molho. A cor depende da variedade do peixe, a carne rija pode significar um peixe muito fresco. Pintinhas de sangue indicam que o atum estava stressado no momento da captura, mas o sabor mantém-se com a mesma qualidade. O estágio mínimo para uma conserva é de seis meses, mas o ideal são três anos. São anos de prova para se identificar a perfeição de uma conserva", explica a provadora Regina Cabral Ferreira, proprietária d' A Conserveira de Lisboa..Quando Regina nasceu, no ano de 1948 em Coimbra, as marcas Tricana (pedaços de peixe inteiros), Minor (peixe em pedaços) e Prata do Mar (específica para sardinhas) já faziam parte da mesa dos portugueses desde 1930. Cresceu em Tomar, com o pai a ser chamado de "comunista" por ser leitor do jornal República. Desafiou as convenções da época e mudou--se sozinha para Lisboa para estudar e trabalhar. Tinha o próprio apartamento e guiava o seu carro, frequentadora do Vavá, relacionava-se com os intelectuais dos anos 70. A estudar no Instituto Superior de Línguas e Administração em 1971, experimentou o jornalismo com colaborações para os jornais O Século, Diário de Lisboa e o República. Encontrou-se profissionalmente no serviço social, actividade que apesar de reformada não deixa de praticar no intervalo da prova de uma conserva, a visita à fábrica nos Açores e o atendimento personalizado dos clientes..A realização como professora no Colégio das Descobertas - foi pioneira ao participar da implantação em Portugal do modelo americano de ensino integrado através do método open classroom, que incluía jovens com problemas comportamentais - conjugou-se com o encontro com o futuro marido, Armando Cabral Ferreira, engenheiro e professor do ensino superior e filho único do proprietário d' A Conserveira de Lisboa. "Foi muito bonito, um encontro de amor e de actividade profissional. Ao longo dos anos, sempre estivemos envolvidos com a loja, que marca a história da cidade no século XX. No primeiro dia do ano fechávamos para fazer o balanço e abrir com as contas organizadas. Há uns três anos, antes de o Armando falecer, encontrámos uma lata de atum com 22 anos, o peixe parecia seda, derretia na boca. Compartilhávamos tudo", relembra, saudosa..Quando o sogro quis vender a loja e voltar para Trás-os-Montes, em 1984, Regina não vacilou e assumiu o negócio. É exigente com os fornecedores e está sempre à disposição das pessoas. Este ano já devolveu três lotes, cerca de 4500 embalagens, quando abriu uma lata e no olho percebeu que se tratava de peixe congelado. Os amantes de conserva, para além de a visitarem para as compras do mês, trazem notícias: o casamento, o nascimento dos filhos, a carreira profissional..A cada mês comercializa dois mil quilos de peixe, sem contar as exportações para lojas gourmet na França, Itália, Alemanha e Japão. Não atende os restaurantes nem abre filiais porque a oferta de peixe fresco não dá conta da demanda dos apreciadores. Dá continuidade ao trabalho como assistente social, por exemplo na relação com os idosos da região. "Democrática e honesta até ao âmago", valoriza a qualidade no relacionamento com os empregados da loja. "Alguns foram estudar línguas estrangeiras com o meu incentivo, no fim de tarde compartilhamos uma conserva, um cigarro. O menor salário é de 904 euros líquidos, a loja paga sozinha a Segurança Social". A independência proporcionada pelo comércio abriu-lhe espaço para as actividades intelectuais "sem obrigatoriedade". Quando não está ao balcão, lê, escreve, dedica-se aos filhos e aos amigos. "São as pessoas com quem nos relacionamos que fazem a diferença ao longo da vida."