A APRENDIZAGEM DE SIEGFRIED

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Ópera. O São Carlos abre esta tarde as portas para uma nova temporada com a estreia de 'Siegfried', ópera de Richard Wagner e terceira parte do ciclo 'O Anel do Nibelungo', cuja encenação o teatro lisboeta confiou ao prestigiado encenador britânico Graham Vick

Ópera transmitida duas vezes para o Largo de S. Carlos

A temporada lírica 2008-09 do Teatro Nacional de São Carlos abre este fim de tarde (18.30) com a primeira récita da nova produção da ópera Siegfried (Bay- reuth, 1876), em três actos, de Richard Wagner (1813-1883).

Trata-se da continuação do projecto de encenação das quatro partes de O Anel do Nibelungo, que o consagrado encenador britânico Graham Vick concebeu especificamente para o São Carlos e do qual já vimos O Ouro do Reno (Mai/Jun 2006) e A Valquíria (Fev/Mar 2007). Siegfried subirá por sete vezes à arena que Vick idealizou, cobrindo palco e 4/5 da plateia: após a estreia, hoje, seguem-se novas récitas a 3, 6, 9, 12, 15 e 18 de Outubro. O horário das 18.30 só não se verifica nos dias 12 e 18, que terão horário de matiné (16.00).

A propósito do Siegfried, o S. Carlos vai fazer nova edição do "Ópera ao Largo", instalando um ecrã gigante no Largo fronteiro ao Teatro. Entre os dias 9 e 12, há dez transmissões, à tarde e à noite, de O Ouro do Reno (ópera e making of), de A Valquíria e - a cereja no topo do bolo -, deste Siegfried, que terá transmissão directa nos dias 9 (às 18.30) e 12 (às 16.00). Deve notar-se que a duração prevista de cada récita, incluindo intervalos, andará à volta das 5h30m.

Noutro âmbito se inscreve uma colaboração com o Goethe-Institut, no quadro da qual está programado um concerto (direcção de Cord Garben) de música de Wagner em versões para orquestra de salão do séc. XIX e XX (dia 2, 21.00) e a projecção do mudo A morte de Siegfried, de Fritz Lang, acompanhado ao vivo pelo quinteto Carolina Eyck & Ensemble (dia 11, 20.00).

Da origem à estreia

O libreto do Siegfried (O jovem Siegfried era o título primitivo), escrito pelo próprio punho de Wagner, data de Maio/Junho de 1851, tendo sido revisto no ano seguinte). A composição iniciou-a em Agosto de 1856, mas interrompê-la-ia 11 meses depois. Voltaria à ópera em 1864/65 e, em definitivo, em Março de 1869, data em que inicia a composição do III Acto. O "traço duplo" conclusivo é finalmente colocado a 5 de Fevereiro de 1871.

A estreia dar-se-ia a 16 de Agosto de 1876, no quadro do Festival que inaugurou o Teatro de Bayreuth. No quadro da tetralogia O Anel do Nibelungo,constituída por um prólogo e três jornadas, Siegfried é a segunda jornada. O todo conclui com O Crepúsculo dos Deuses, a ver em Lisboa daqui por um ano.

Graham Vick trouxe consigo os seus colaboradores habituais Timothy O'Brien (cenografia e figurinos) e Giuseppe di Iorio (desenho de luz). A direcção musical é, como n'A Valquíria, de Marko Letonja.

O elenco é constituído pelos seguintes cantores (com indicação do respectivo papel): tenor Stefan Vinke (Sieg-fried), soprano Susan Bullock (Brünnhilde - valquíria/mulher), tenor Colin Judson (Mime - nibelungo), baixos-barítonos Samuel Youn (O Viajante - deus Wotan disfarçado) e Johann Werner Prein (Alberich - nibelungo, irmão de Mime), baixo Dieter Schweikart (Fafner - dragão/gigante), mezzo Gabriele May (Erda - deusa) e soprano Chelsey Schill (Pássaro da Floresta, cujo canto Siegfried decifra).

Completam a lista o Coro do Teatro São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Note-se, por fim, que, uma hora antes do início de cada récita, o Teatro porá à disposição do público, se os houver, bilhetes de última hora ao preço de 15 ou de 20 euros.

"Siegfried passa de rapaz para homem nesta ópera"

Entrevista com Graham Vick, encenador de ópera

Como caracterizaria Siegfried enquanto ópera e dentro do Anel do Nibelungo?

Por um lado, tem a música de maior beleza lírica, mas é uma ópera estranha, obcecada pela esperteza. A paisagem emocional é tão escura e despojada que desafia o poder da música - factor que contribuiu, decerto, para a interrupção de 10 anos na composição.

Porque diz isso?

Eu acho que ele se perdeu em toda aquela negatividade e não conseguiu sair. Mas ele também devia estar física e psicologicamente exausto após seis anos de trabalho intensíssimo e obsessivo no projecto do Anel.

Partilha a opinião de que se nota esse hiato temporal no Acto III?

Sim, há um corte, mas ele é compreensível: é dramatúrgico e estrutural - e já existe no libreto, que já estava escrito. Creio que a obra mantém a homogeneidade e a mudança no estilo é totalmente justificada pelo conteúdo.

Entretanto, Wagner compôs o Tristão e Isolda. Acha que há influências desta ópera no Siegfried?

Há muito do Tristão no III Acto: todo o ideal de desejo, de força vital repassa da personagem muito ambígua do Viajante e é sobretudo dado pela música que Wagner lhe deu. Penso que Wagner tinha uma visão muito sentimental de Wotan. Este, no fundo, é um ser humano. Não um deus. É Fausto.

Como lê a cena de amor entre Siegfried e Brünnhilde no final da ópera?

Cada um de nós, quando se apaixona, pensa que a sua história de amor é mais intensa que qualquer outra. É da natureza do amor. É uma cena muito bela, uma história maravilhosa. Não só uma história de amor, mas antes a de uma mulher e da sua descoberta da sua humanidade, no sentido muito concreto da palavra. Brünnhilde é uma personagem maravilhosa, e é retratada de uma maneira fantástica nessa cena.

Antes, Siegfried defronta-se com o Viajante/Wotan, que é como que o seu avô...

Aí, estamos perante uma relação pai-filho, um conflito entre pai e filho. Há mais planos, claro, mas o fundamental é esse, porque a lança de Wotan representa a autoridade. Mas, atenção: Siegfried é um "filho" substituto, para Wotan, do verdadeiro filho [Siegmund], que ele teve de matar e que, esse sim, era parte do seu plano para restaurar o poder dos deuses. Wotan falha em toda a linha e também falha com a filha, Brünnhilde, pois não consegue impedir que Siegfried a acorde e a tome por mulher.

Porque descobre Siegfried o medo pela primeira vez diante de Brünnhilde?

Medo e sexo estão intima e inextrincavelmente ligados. É nessa perda de inocência que se inscreve também ele provar o sangue de Fafner (gigante/dragão) depois de o matar: a viagem de Siegfried ao longo da ópera é a da passagem de rapaz para homem e, nesse processo, matar, assassinar traz discernimento, compreensão e maturidade. - B.M.

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